21/05/2008

resposta

Não há medo algum em mim. Esse terror que sempre me ocupou e que respeitei como se respeita um medo, tem outro nome e motivo. Sei bem que o que importa são os motivos, apenas eles justificam os absurdos. O terror com quem divido a casa, os móveis e as visitas, é minha máxima proteção, é quem delimita até onde quero que cheguem até mim e, com pequenas variações, não permito nunca que ultrapassem certo ponto. Escondo-me enquanto outros olhos supõem me invadir. Olhar nenhum alcança além do que em mim quer ser alcançado. As minhas indagações e os meus motivos flutuam num rio que ninguém nada, ninguém jamais se afogará em mim e isso já é uma decisão antiga. Será que as outras pessoas são assim também, intransponíveis? É bem possível que sim. Me agrada muito a impossibilidade de conhecer alguém totalmente, é isso o que torna a vida viável. Ignorar, nesse caso, é a nossa única salvação, se é que temos ou esperamos por uma. Seriamos excessivamente selvagens se não nos escondêssemos, não teríamos esperanças e nos sentiríamos ainda mais tristes. A beleza, o amor e a gratidão devem estar no que se supõe ou se imagina, não no que se arranca. Eu evito certas perguntas, não gosto que queiram saber sobre mim, não gosto. A minha casa faz parte disso, aqui comigo estão quase sempre as mesmas pessoas, não gosto de visitas inesperadas, são decadentes. Gosto de gente que vai embora e que fica apenas o tempo necessário para que eu possa continuar suportando-as e elas a mim. Gosto das coisas que terminam e, sinceramente, desprezo alguns começos. O infinito só tem sentido na solidão.

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