não existia um assunto urgente e também não era um assunto só. eram segredos disformes ao pequeno olhar. arrependimentos e verdades verdadeiras. recados a quem interessassem saltavam do papel sem cor sem pedir perdão. não era ali lugar para coisas tais e não pretendia mesmo se desculpar. confusões, muitas, mas tudo verdade, no seu próprio tempo e terror e amor e raiva e amor de novo. era uma carta de fundo de papel branco e fosco. e era público. toda espécie de coisa passada tinha virado palavra, em uma língua qualquer, sabedoria barata para tentar dizer, ao menos dizer. só para não ficar pululando por aí, de cabeça em cabeça, era melhor então ecrever tudo. se arrepender é agoniante demais e as coisas vivas e possíveis estão aí, tem cor e cheiro e dão saudade e sofrem de algum mal.
tudo começava bem lá atrás, com letras miúdas e lentas, perto da desistência. depois foi em frente e as letras se agigantaram e se enfeitaram para ninguém. se podia contar tudo, fosse como fosse, ia acabar falando a mais, corrompendo o papel branco com tamanha irresponsabilidade. falar a verdade, só se for assim, pensou. só se for assim. e acabou contando tudo.
vieram os grandes fatos, não aqueles que acontecem num dia ou numa noite, mas aqueles que se somam e viram um, se apoderam de contar o que tem dentro. para esses não existem invenções, a cabeça insiste, vai e volta sem sossego e não permite a ausência de um encontro.
de madrugada, lembrava e acumulava frases para o dia seguinte, o papel branco ia ficando menos branco e menos novo. o tempo se encarregava das imperfeições, é sua promessa, sempre foi.
não existia mais vida útil fora dali, nada mesmo interessava e toda conversa se tornava descabida. não havia tempo, a não ser aquele usado para contar em palavras. tinha mesmo decidido parar de esconder e, junto com isso, precisava também lembrar, e como era difícil lembrar. sempre havia tentado escapar e fugir, tanto que em certo momento pode perceber a falta de clareza que havia em comentar vida e passado próprios. tinha feito de propósito. tanta coisa mal feita e perdida tinham feito crescer uma culpa inventada e pesada. mas agora havia descoberto que podia dizer se não precisasse ser abrindo a boca, e aquele papel branco era a solução confortável. precisava de uma solução e havia diposição para isso. e assim foi, sem regras – e não sem se perder – que tudo foi existindo de novo, podia agora olhar sua própria vida e história de forma que tomasse conhecimento dos motivos insinuados. nunca teria certeza, isso sabia e por isso continuava, imaginar era mesmo uma aventura muito melhor.
depois o tempo parou de passar. as palavras continuavam pulando e a falta de sono permitia que culpa, medo, passado e razões perdidas se tornassem inimigos menos incovenientes. é melhor não nomear sentimentos que vão sem ir, é melhor a amplidão de possibilidades, um susto diferente a cada pedaço caído de lembrança. pode-se dizer que o melhor mesmo seria não pensar mais, mas parece que a vida é algo que se sente só depois e, sendo assim, é melhor guardar.
03/04/09
06/03/09
bons ventos
me esforço para não esquecer.continuo. mas tudo mudou.
não vou esperar, já passou o terror de não ter. agora tem um vento aqui, bate sem voltar e aumenta de tamanho a cada novo assunto. tudo bem novo e meu. é o meu olhar que olha em volta e não estranha e só anseia e se balança a cada novo rodopio, a cada troca de lugar.
tenho novidades, todas muito íntimas e realmente novas. não sinto tristeza, não me lamento, troco favores com a felicidade. do passado não me lembro muito, mas estico meu pescoço e espio sem saudade aquele resto que não serviu, joguei mesmo fora para não alcançar.
não vou esperar, já passou o terror de não ter. agora tem um vento aqui, bate sem voltar e aumenta de tamanho a cada novo assunto. tudo bem novo e meu. é o meu olhar que olha em volta e não estranha e só anseia e se balança a cada novo rodopio, a cada troca de lugar.
tenho novidades, todas muito íntimas e realmente novas. não sinto tristeza, não me lamento, troco favores com a felicidade. do passado não me lembro muito, mas estico meu pescoço e espio sem saudade aquele resto que não serviu, joguei mesmo fora para não alcançar.
06/01/09
sendo
mesmo que eu precise inventar, lá bem dentro tem um escândalo a me empurrar, me obrigar a continuar. os dias leves não me convencem, eu procuro no drama os calores que quero encontrar, misturo os sabores, confundo os que passam e subo bem alto para depois me arrepender e doer e fazer tudo de novo e viver pedindo desculpas. posso insinuar ternura e amor, mas não o faria sem perigo ou tragédia, sem a possibilidade vital de tremer, passional, sobre a finura em que me equilibro sem pender exatamente para lado nenhum. não pode ser pouco, não deve bastar, quero sobrar no excesso, nadar no que irá ser varrido depois. acumular. quem me socorre sou eu, não faço apelos, apenas grito em público, mas o que soa alto nada quer pedir, só desejar, como forma de vida que não sufoque e não faça desistir. na alegria impera também a exaustão, um disparate de dor às avessas. não pode ser menos, não deve faltar, eu quero empurrar o meu corpo e usar o que me veio a mais em meu próprio existir, por vezes benéfico, por vezes estúpido. eu exagero, eu sei, mas nunca me dei a menos, esse pesadelo não irá me assombrar. a culpa faz parte disso, mas suporto porque sou eu quem a invento e dou um jeito de fazer os dias correrem afastando o último do que há de vir. no escuro penduro os colares e brincos, remoo valores que não entendo mas que me cobram porque me foram passados, depois tomo um veneno para afastar da memória o que devem dizer por aí. não me importo. só não posso estar no meio do caminho, a medida é alta, só posso me mover se for até o fim, até onde posso caber e descansar na paz intranquila de quem nunca vai ter sossego. isso não me foi prometido e também nunca pedi leveza alguma, serenidade nenhuma me alcançará. são apenas vultos os dias que me acolhem sem ardor. não os considero. é preciso pesar, inchar, senão me disperso de mim e quero voltar e não ser. o que está resolvido é o que não se resolve, o que não vou encontrar e não sei.
19/12/08
a verdade provisória
eu queria cantar o meu amor. queria ter a quem cantar o meu amor. inventar o meu amor. um amor que não se despede, não vai embora e nem se distancia dizendo eu volto um dia.
a distância não combina com meu corpo. não almejo futuros e não me dou bem com promessas. o que eu quero tem em mim o espirito amaldiçoado do que não se adia ou se desvia. vou me perder de você, já é certo. palavras poucas não me abastecem, eu finjo bem, mas o que quero é o terror dos dias e sentimentos alterados e dramáticos. eu quero o amor que mata. ou morre. vou dar um tiro cintilante em você e, em silêncio, você sumirá de mim, nunca ouvi falar, é o que gritarei por aí. o teu descaso e desejo pouco afoito me exasperam e retira o que você em mim plantou, sem sementes ou promessas. é muito pouco. ou sou eu quem exagero em ser em tão pequeno e gostoso corpo um ser eloquente e merecedor apenas das dramaticidades do amor e dor e séculos atrás de mim. não me caibo. falta. sempre sobra algum espaço a completar. não vem ninguém, e nenhum grito, além do meu, alcança, em vão, o verdadeiro e íntimo espaço a morrer sem se encharcar. vai, vai assim, sem tragédia ou desespero. não há decepções em mim. tudo em mim já se mostrou e escancarou que não há vil esperança que possa me tomar. eu apenas me distraio, invento e finjo que milagres acontecem. milagres me atraem, embora não existam. eu não fui a sorteada, amor nenhum há de ser meu e me tomar. vá embora com seu pouco, e ache alguém que ache muito o que pra mim há de faltar. não seu culpe, o defeito é todo meu, o castigo é para mim, em sonho já haviam me avisado. nasci lá atrás, bem pequena e tortuosa, era sábado e chovia. o amor que eu inventei foi pra enfeitar o meu colchão, minha noite e meu perdão, na desculpa de me dar, de ter sido castigada pela falta que me faço. estou só. e o meu amor vou espalhar, subir na mesa e inventar que estou feliz e que ninguém mais do que eu aproveitou a vida vã a mergulhar tanta beleza e disfarçar felicidade e se entregar, como se fosse de verdade, como se fosse despencar. o meu drama é estar aqui e confessar todas respostas que ninguém me perguntou. aqui me dispo e despeço. é com Deus que eu converso, já não vou mais me matar.
a distância não combina com meu corpo. não almejo futuros e não me dou bem com promessas. o que eu quero tem em mim o espirito amaldiçoado do que não se adia ou se desvia. vou me perder de você, já é certo. palavras poucas não me abastecem, eu finjo bem, mas o que quero é o terror dos dias e sentimentos alterados e dramáticos. eu quero o amor que mata. ou morre. vou dar um tiro cintilante em você e, em silêncio, você sumirá de mim, nunca ouvi falar, é o que gritarei por aí. o teu descaso e desejo pouco afoito me exasperam e retira o que você em mim plantou, sem sementes ou promessas. é muito pouco. ou sou eu quem exagero em ser em tão pequeno e gostoso corpo um ser eloquente e merecedor apenas das dramaticidades do amor e dor e séculos atrás de mim. não me caibo. falta. sempre sobra algum espaço a completar. não vem ninguém, e nenhum grito, além do meu, alcança, em vão, o verdadeiro e íntimo espaço a morrer sem se encharcar. vai, vai assim, sem tragédia ou desespero. não há decepções em mim. tudo em mim já se mostrou e escancarou que não há vil esperança que possa me tomar. eu apenas me distraio, invento e finjo que milagres acontecem. milagres me atraem, embora não existam. eu não fui a sorteada, amor nenhum há de ser meu e me tomar. vá embora com seu pouco, e ache alguém que ache muito o que pra mim há de faltar. não seu culpe, o defeito é todo meu, o castigo é para mim, em sonho já haviam me avisado. nasci lá atrás, bem pequena e tortuosa, era sábado e chovia. o amor que eu inventei foi pra enfeitar o meu colchão, minha noite e meu perdão, na desculpa de me dar, de ter sido castigada pela falta que me faço. estou só. e o meu amor vou espalhar, subir na mesa e inventar que estou feliz e que ninguém mais do que eu aproveitou a vida vã a mergulhar tanta beleza e disfarçar felicidade e se entregar, como se fosse de verdade, como se fosse despencar. o meu drama é estar aqui e confessar todas respostas que ninguém me perguntou. aqui me dispo e despeço. é com Deus que eu converso, já não vou mais me matar.
inferno
como é que se faz quando tudo vai embora, perde, esquece e nada vem buscar?
em qual lugar desse meu corpo tolo e desconhecido eu sepultei a alegria suspeita que me rondava vermelha e voluptuosa e que agora, invisível e intocável, não encontro mais aqui. vou olhar em volta, desarrumar a casa e as roupas e investigar os cantos e a poeira que se formou desde que inventei sentir este inferno que é querer demais e que, ao primeiro encanto, me confundiu e me convidou a mais pura e plena felicidade insinuada. mentira. invenção. eu esperei, é certo, desejei e fiz planos para o nada vazio e secreto aqui, bem aqui, posso mostrar onde. mas o vulcão desejado e imprevisto me dá e me tira e depois me dá e depois me escapa e foge e não diz se volta para deitar em minha cama, rasgar tudo de novo o que em mim já se abriu e não tem volta. não, não saia de mim, inferno cobiçado e adquirido, mas me povõe também por espaços maiores de tempo, cause-me enjôo, faz-me cansada e absolvida. estraga logo a minha vida, me corrompa, faça isso, já arranquei todos os cabelos do meu corpo suado e este calor só aumenta e fervilha meus odores, os piores e mais sinceros e obscenos, e este amor que de tanto insistir me extasia e me machuca e me deixa aqui plantada e oferecida para nada me trazer. oh, inferno feito em brasa e rodopios, vêm e arranca-me do exílio, me dê mais disso que te peço e te imploro de joelhos e prometo que não vou mais descansar, eu não quero descansar. não dê palpites ou conselhos, não preciso, e não perdôo se você não me alterar. é um castigo ter meu corpo tão entregue ao travesseiro e a cama agora dura me incomoda esperando tais sussurros no plural. mas sua chama me conhece a este ponto e me tortura sem desconto ou gratidão. é um disparate ter os males e os bens num só lugar.
em qual lugar desse meu corpo tolo e desconhecido eu sepultei a alegria suspeita que me rondava vermelha e voluptuosa e que agora, invisível e intocável, não encontro mais aqui. vou olhar em volta, desarrumar a casa e as roupas e investigar os cantos e a poeira que se formou desde que inventei sentir este inferno que é querer demais e que, ao primeiro encanto, me confundiu e me convidou a mais pura e plena felicidade insinuada. mentira. invenção. eu esperei, é certo, desejei e fiz planos para o nada vazio e secreto aqui, bem aqui, posso mostrar onde. mas o vulcão desejado e imprevisto me dá e me tira e depois me dá e depois me escapa e foge e não diz se volta para deitar em minha cama, rasgar tudo de novo o que em mim já se abriu e não tem volta. não, não saia de mim, inferno cobiçado e adquirido, mas me povõe também por espaços maiores de tempo, cause-me enjôo, faz-me cansada e absolvida. estraga logo a minha vida, me corrompa, faça isso, já arranquei todos os cabelos do meu corpo suado e este calor só aumenta e fervilha meus odores, os piores e mais sinceros e obscenos, e este amor que de tanto insistir me extasia e me machuca e me deixa aqui plantada e oferecida para nada me trazer. oh, inferno feito em brasa e rodopios, vêm e arranca-me do exílio, me dê mais disso que te peço e te imploro de joelhos e prometo que não vou mais descansar, eu não quero descansar. não dê palpites ou conselhos, não preciso, e não perdôo se você não me alterar. é um castigo ter meu corpo tão entregue ao travesseiro e a cama agora dura me incomoda esperando tais sussurros no plural. mas sua chama me conhece a este ponto e me tortura sem desconto ou gratidão. é um disparate ter os males e os bens num só lugar.
14/12/08
aniversário
para então, depois, ir-se, sem presságio ou gentileza.
melhor morrer como fugir.
tamanha a indelicadeza de viver.
melhor morrer como fugir.
tamanha a indelicadeza de viver.
08/12/08
você pode me bater
teu amor me ensinou a voltar para casa, me obrigou a dizer a verdade inteira e sem recortes, me forçou a gritar em seus ouvidos, lamber a sua orelha e chupar a sua boca. teu amor me empestiou de novidades maliciosas e coceiras fora de hora, me levou para não voltar, não vou voltar. teu amor me faz visitas e eu invento novas palavras pra dizer a todo instante que te amo sem saber o quanto por não saber medir em mim o meu próprio corpo e peso e o cansaço que te ter me toma e envaidece. o teu amor, e nenhum outro que não tive e não conheço ou inventei, me perturba com respostas sempre prontas sobre o infinito agora anunciado. more em mim, amor meu, invada minha casa e suponha minha morte. esquente com violência o meu corpo sempre seu e num lampejo roube de mim o meu futuro, espalhe por aí que já não existo mais, que não me procurem, fui pra sempre com você. não vou voltar, sei que vão duvidar, mas diga a todos que não voltarei. volte para mim todas as vezes e me transforme em quase nada, apenas sua. apenas sua eu serei. quero sempre este tormento de não ter como voltar, não ver retornos e nem algum outro lugar para morar. em teu corpo me hospedei, faço cócegas e não sei como parar. não me estranhe se te digo que te quero e que você me ascendeu, me devolveu o que eu já tinha e não era meu. não parta de mim, nem solte da sua a minha mão agora tua. me bata, me arraste por aí, puxe meus cabelos e me ame sem pudor ou restrições. invente outro lugar e me leve com você, já me esqueci de todo resto, todo mal já sepultei e já não tenho mais guardado ou escondido. o teu amor não me deu trégua ou escolha, já não minto ou fantasio. você roubou o que eu guardava pra ninguém. o teu amor me unificou, já não sou várias, sou apenas a parte que se oferece e abre as pernas pra você. não vou mais fugir. seu olhar me segurou, amarrou pernas, braços e pescoço e quase me enforcou. antes eu ia embora, sempre ia, de quando em quando eu desistia, inventava uma viagem e morria. com você posso ficar. seu amor me apertou entre fervuras e olhares demorados, me jogou no chão e eu gostei. você pode me bater, você pode me odiar, eu ficarei.
07/12/08
a insanidade
e o tempo que também é assim e que é feito do que é feito de nós e tão somente nossa única matéria e composição a esperar, enganar, envolver. um homem-não-homem e invisível, decerto cinza, que espalha recados e some e nos trai. o tempo que não quero ter, o tempo que apresso, disparo e estaciono, em vão. um dono demente, autoritário e servil, que me manda ir embora, ficar, esperar e nos adianta segredos e coxixos vindouros do que não se vê. uma brasa espalhafatosa é o que o tempo é. irregular e desobediente, sem presságios, sem pistas, sem moldes. o próprio Deus que suspeitamos e não podemos apalpar. repentino é o tempo, sem previsões nos concede e dá e tira e devolve e foge para sempre. um afago nos cabelos hoje, outra morte amanhã. o abrigo da esperança, a temperança em seu recheio vasto e indizível, o único motivo de todos os motivos irreais que, por bondade ou trapaça, o tempo nos permite criar e poder nos manter cambaleando, ora menos, ora muito mais. é o que não avisa o número de dias ou de dores, cruel e sem negociações preventivas nos apodrece em cadeiras e janelas a esperar. o que nos sacode na boa surpresa de quem não acredita ou espera aventura nenhuma e se despede dos males, presente do tempo. um tapa na cara, uma porta trancada para sempre. para sempre e nunca mais. no ódio nos arrasta sem perdão e nos tortura, depois faz promessas que por vezes cumpri, por vezes mente. não temos tempo quando na verdade é apenas o que temos. no amor nos rouba, sem compensações futuras, e no inferno da desordem nos toma para ele, muda-se para dentro de nós, eternamente. depois muda de idéia e nos devolve, num dia à toa, vontades e langores já esquecidos, conformados. não há insultos nem agradecimentos, não existe razão ou rédea de sentimento algum, não podemos prometer, garantir, enfeitar. tempo ladrão, perdulário e altruísta. nosso espelho. assim nos vemos e só assim verdadeiramente somos e inventamos existir. o tempo é Deus, e só ele o é, não tenho dúvidas. manipulador de dias e madrugadas que nem chegam a acontecer, ou que duram muito mais e nos fazem acreditar que merecemos o êxtase que precede a gratidão. o meu tempo, o seu tempo e o tempo do mundo desde lá atrás até perder de vista, é tudo o que nos escapa e o que em nós parece durar, é somente o que temos e tão somente o que não temos. a reunião de todas as coisas, existentes ou não, todos os bens e todos os males não são de nossa propriedade, não assinamos embaixo de nada, não podemos, embora vivamos como se fôssemos de fato uma pessoa com indícios e medos e planos e doações. e o tempo, permissivo que é, nos aproxima de nossas supostas possibilidades, para depois, com distanciamento, termos tempo de sobra para nos arrepender ou querer mais. dou meu tempo, meu amor, faço ameaças e morro de vez em quando, para depois duvidar se realmente alguma coisa aconteceu, se mudei de lugar ou virei outra pessoa num espaço que não poderia de fato relatar com honestidade. já me entreguei sem precisar desistir, a noção temporária de que posso dar ou receber alguma coisa faz com que algumas perguntas não se ocupem de mim, não por ignorância, mas por amor e desejo de continuar eu mesma inventando meu próprios dias e calores que ainda quero sentir e oferecer.
29/11/08
veneno
a porta abria e fechava, num esforço maior em deixar algo entrar. era o vento e era o cheiro e um barulho que invadiam a casa, os travesseiros e os lençóis. havia uma desordem e um abandono triste de noites quentes sem razão ou companhia. apenas um copo, um prato, uma toalha e um único corpo, ofegante e sem par. uma casa cega e sem novidades, era assim agora o meu lugar. o passado ia e vinha, em delírio eu enxergava algum futuro próximo e engolia goles grandes de água limpa pra espantar o meu calor sozinho e não perder os sentidos que ainda me salvavam. a porta continuava a abrir e depois fechar, num ruído irritante e inútil. nada chegava em minha casa agora inabitável e com saudade. eu pensava em buscar, trazer de volta e voltar a abrir os olhos para ver então seus olhos em cima de mim, em volta de mim. seus olhos entrando em mim sem adeus. pensava em suas mãos tão brancas e minha saudade cortava-me outro pedaço. imaginava, repetia seu nome aos gritos, dormia e sonhava de propósito com você. ninguém me ouvia, eu não tinha salvação. a saudade me envenenou, me afastou daqui para sempre e nunca mais te vi.
27/11/08
a m o r
e então falamos de amor e nos atiramos para não morrer, não sobrar. o amor escandaloso e sangrento nos arrastou pelo chão já sem cor e não quer mais dormir. vamos embora, vamos fugir, já está combinado. vou puxar seus cabelos e dançar pra você. no próximo mês, quem sabe. é este seu nome e não há desaforo nenhum em ter pressa, não existe passado, vamos fugir amanhã, já está combinado. vamos falar bem baixinho e inventar outro tempo, vou me dar pra você, já está combinado. já roubei seu amor e plantei em meus pés, me esfreguei sem parar, sem ter volta. não vou devolver. o que você me pedir eu te dou. já te dei meu amor, vou te dar meu amor, já está combinado.
18/11/08
eu tenho planos pra você
para um pequeno peixe
tudo meu ainda está aqui, quero de novo te emprestar, posso me dar por horas longas, não precisa devolver, minhas noites te esperam, pode vir sem avisar, vêm pisar tudo de novo, escrever em meus cabelos, encostar seu peso quente e querer me machucar, todo antes foi embora, o meu corpo agora é outro e o meu passado bem pequeno, tenho os poros remexidos e um cheiro que não sai, minha pele se rasgou, já não existe mais sossego, em meu sono afasto as pernas, me assanho em pensamento e quase grito sem gritar, vou fugir pra te buscar, te trancar dentro de mim, me esfregar em seus desvãos sem descansar ou me ausentar, tráz teus pelos, teu pescoço, tua boca e este inferno que não posso adiar, já molhei toda minha casa, me apertei contra parede, repassei cada pedaço, mas é pouco, eu preciso me afogar, traga-me seus dedos, pode entrar e me roubar, estancar entre minhas coxas o meu sangue oferecido e me apertar, volta, vêm me machucar, vou cochichar em seu ouvido meus pedidos e vontades, meu corpo não aceita essa demora e sai em busca toda noite procurando o seu suor, tudo em mim só quer voltar, repetir, continuar, vou te enforcar com minhas mãos, te trazer de volta a tona e pedir mais, te devolvo então meus seios pra você fazer de novo e inventar novos motivos pra querer me machucar.
tudo meu ainda está aqui, quero de novo te emprestar, posso me dar por horas longas, não precisa devolver, minhas noites te esperam, pode vir sem avisar, vêm pisar tudo de novo, escrever em meus cabelos, encostar seu peso quente e querer me machucar, todo antes foi embora, o meu corpo agora é outro e o meu passado bem pequeno, tenho os poros remexidos e um cheiro que não sai, minha pele se rasgou, já não existe mais sossego, em meu sono afasto as pernas, me assanho em pensamento e quase grito sem gritar, vou fugir pra te buscar, te trancar dentro de mim, me esfregar em seus desvãos sem descansar ou me ausentar, tráz teus pelos, teu pescoço, tua boca e este inferno que não posso adiar, já molhei toda minha casa, me apertei contra parede, repassei cada pedaço, mas é pouco, eu preciso me afogar, traga-me seus dedos, pode entrar e me roubar, estancar entre minhas coxas o meu sangue oferecido e me apertar, volta, vêm me machucar, vou cochichar em seu ouvido meus pedidos e vontades, meu corpo não aceita essa demora e sai em busca toda noite procurando o seu suor, tudo em mim só quer voltar, repetir, continuar, vou te enforcar com minhas mãos, te trazer de volta a tona e pedir mais, te devolvo então meus seios pra você fazer de novo e inventar novos motivos pra querer me machucar.
09/11/08
o dia em que não fui mais embora
para rodrigo
houve um dia em que decidi acabar, terminar para sempre. eu já não precisava de mim para me acompanhar, as coisas continuariam, o mundo não se acabaria e o pequeno pedaço que sou não atrapalharia a ordem das coisas. saí no meio da noite, a escuridão me esconderia melhor, o que me pouparia de calcular o meu medo. mas era um medo sem nome, sem cheiro e sem pernas para correr atrás de mim. mas existia. e sua presença todos os dias em minha vida incentivou-me a deixar de ser e existir. eu já me sentia cansada em ser uma pessoa com medo, eu já nem era uma pessoa, não sentia ser. minha carne resistia, não queria abandonar tão belo mundo interrompendo seus desejos. mas os pensamentos se atrapalhavam trêmulos pelo medo sem nome. parti. levando comigo meu corpo triste que queria ficar. no terceiro dia de nosso caminho o meu corpo adoeceu e caiu de cama numa estrada barata e medrosa, tornando inviável qualquer passo que minha cabeça quisesse dar.
se for para voltar eu posso ter forças, mas, se continuarmos, morreremos, disse meu corpo para minha cabeça. se você tem medo eu tenho outras coisas, disse ele, e se você desistir e voltar eu posso fazer sua cabeça feliz e você vai poder balançar seus cabelos e nenhum susto vai te incomodar além dos que vou te oferecer.
minha cabeça cansada e com medo não compreendia as promessas do corpo e o pediu que explicasse melhor.
você, disse o corpo, você é a minha cabeça e não é possível que nada tenha chegado até aí além de seu medo sem nome nem calor, aqui em minha garganta estão as palavras que eu preciso voltar pra buscar e dizer e ficar sem ter que partir. tenho em mim um odor espalhado, um inferno de coisas para experimentar e poder viver pelas noites e noites e nunca enjoar. se você, pobre cabeça, não puder entender, é porque não és minha assim como não posso te pertencer. em meu pés juntam-se coisas, acumulam-se prazeres e dores que você nunca sentiu. você recusou meus alívios e gritos e meu querer mais. eu quero mais, e se você não quiser nós morreremos os dois e eu nunca te perdoarei. não me deixe doente e pense outra vez. quero viver este inferno do amor que transborda em meu corpo e arrepia os meu seios e pelos sutis. se você concordar você vai me entender, pois sabemos que você é quem manda. saiba, cabeça minha, que tudo o que vi e senti foi pouco demais pra nós dois. vamos voltar, eu te empresto minhas pernas, pinto meu rosto que é nosso e depois podemos dançar. vou te enviar pelas veias mensagens históricas que tenho gravadas aqui, em meu solo tão fértil e barrento estão enterrados amores de ontem que escondi pra te dar. vai ser tudo nosso. tenho um milhão de saudades e posso dividí-las com você para que adormeça pensando nelas, e quando isso acontecer, quando você aprender a comer minhas lembranças você entenderá e também vai querer mais para poder viver lembrando. porque eu, sozinho, cabeça querida, não tenho passado nenhum para buscar. eu preciso de você pra alimentar minhas cobiças, prolongar minha esperança em ter dentro de mim o que precinto e sei de cor. vamos comigo, roçar nossos cabelos em meu pequeno passado e depois ficar lembrando e se molhando enquanto lembra.
e a cabeça sem ternura anterior aceitou dar meia volta, e em silêncio e sem medo não quis mais ir embora.
houve um dia em que decidi acabar, terminar para sempre. eu já não precisava de mim para me acompanhar, as coisas continuariam, o mundo não se acabaria e o pequeno pedaço que sou não atrapalharia a ordem das coisas. saí no meio da noite, a escuridão me esconderia melhor, o que me pouparia de calcular o meu medo. mas era um medo sem nome, sem cheiro e sem pernas para correr atrás de mim. mas existia. e sua presença todos os dias em minha vida incentivou-me a deixar de ser e existir. eu já me sentia cansada em ser uma pessoa com medo, eu já nem era uma pessoa, não sentia ser. minha carne resistia, não queria abandonar tão belo mundo interrompendo seus desejos. mas os pensamentos se atrapalhavam trêmulos pelo medo sem nome. parti. levando comigo meu corpo triste que queria ficar. no terceiro dia de nosso caminho o meu corpo adoeceu e caiu de cama numa estrada barata e medrosa, tornando inviável qualquer passo que minha cabeça quisesse dar.
se for para voltar eu posso ter forças, mas, se continuarmos, morreremos, disse meu corpo para minha cabeça. se você tem medo eu tenho outras coisas, disse ele, e se você desistir e voltar eu posso fazer sua cabeça feliz e você vai poder balançar seus cabelos e nenhum susto vai te incomodar além dos que vou te oferecer.
minha cabeça cansada e com medo não compreendia as promessas do corpo e o pediu que explicasse melhor.
você, disse o corpo, você é a minha cabeça e não é possível que nada tenha chegado até aí além de seu medo sem nome nem calor, aqui em minha garganta estão as palavras que eu preciso voltar pra buscar e dizer e ficar sem ter que partir. tenho em mim um odor espalhado, um inferno de coisas para experimentar e poder viver pelas noites e noites e nunca enjoar. se você, pobre cabeça, não puder entender, é porque não és minha assim como não posso te pertencer. em meu pés juntam-se coisas, acumulam-se prazeres e dores que você nunca sentiu. você recusou meus alívios e gritos e meu querer mais. eu quero mais, e se você não quiser nós morreremos os dois e eu nunca te perdoarei. não me deixe doente e pense outra vez. quero viver este inferno do amor que transborda em meu corpo e arrepia os meu seios e pelos sutis. se você concordar você vai me entender, pois sabemos que você é quem manda. saiba, cabeça minha, que tudo o que vi e senti foi pouco demais pra nós dois. vamos voltar, eu te empresto minhas pernas, pinto meu rosto que é nosso e depois podemos dançar. vou te enviar pelas veias mensagens históricas que tenho gravadas aqui, em meu solo tão fértil e barrento estão enterrados amores de ontem que escondi pra te dar. vai ser tudo nosso. tenho um milhão de saudades e posso dividí-las com você para que adormeça pensando nelas, e quando isso acontecer, quando você aprender a comer minhas lembranças você entenderá e também vai querer mais para poder viver lembrando. porque eu, sozinho, cabeça querida, não tenho passado nenhum para buscar. eu preciso de você pra alimentar minhas cobiças, prolongar minha esperança em ter dentro de mim o que precinto e sei de cor. vamos comigo, roçar nossos cabelos em meu pequeno passado e depois ficar lembrando e se molhando enquanto lembra.
e a cabeça sem ternura anterior aceitou dar meia volta, e em silêncio e sem medo não quis mais ir embora.
07/11/08
o eu
tudo era muito vermelho, só vermelho e eu duvidava, cambaleava esfregando os olhos com ambas as mãos. era tudo verdade. me sentei, abri a janela, a menor de todas, espiei o que já não era mais meu. o meu lugar agora era este e no chão haviam três sapatos vermelhos que logo me apossei. são meus. vão combinar com todo o resto, pensei. haviam deixado também alguns bilhetes, espalhados e escondidos, que fui encontrando aos poucos. eram recados íntimos e indecentes, ordens e pedidos que ignorei. móveis pouquíssimos: uma cadeira vermelha, uma meia cama vazia e um quadro abandonado no chão, onde, observando bem , podia-se ver um beijo desfocado. na parede, também vermelha, lia-se uma palavra: eu. fixei meus olhos no eu da parede vermelha, comecei a entender o possível significado de minha presença ali, naquele espaço exíguo e tão alheio. estava escrito em branco em letras simples e legíveis. já não me sentia tão incomodada, o que me deu coragem para abrir também a janela maior, a maior de todas. abri. não havia nada lá fora, nada que me prendesse além do vento que limpava o ambiente. era o eu da parede que me segurava agora, e comecei a reconhecer as vantagens do lugar vermelho e inóspito. eram muitas as vantagens. o eu da parede me fazia companhia, minhas horas embebiam-se em tamanha descoberta. que susto bom! a cadeira vermelha passou a me ser útil, e o fato de ser vermelha desculpava toda sua falta de conforto. coloquei-a em frente a parede do eu, sentei-me, e enquanto mexia em meus cabelos fazendo nós engraçados e depois desmanchando-os, lia aquela sílaba como se ela demorasse mais que uma sílaba. muito mais. pensei no fim do mundo, sempre penso sobre isso nas horas mais bonitas intensas eternas sozinhas reveladoras minhas. o eu da parede me revirou em êxtase. dentro de mim nunca havia entrado nada parecido, tantas cócegas e o meu contentamento não seria explicável com palavras que já exitem. eu teria que inventar se quisesse, mas eu não precisava de palavra nenhuma além do eu da parede. comecei a chorar, não era tristeza, ou melhor, era, mas não essa de significado vulgar e tolo. não. era uma felicidade incomparável em minha vida naquele instante, naquele vermelho inundado pelo eu branco. resolvi calçar um dos sapatos vermelhos, ficaram lindos em meus pés. tirei toda minha roupa e mantive os sapatos. meu corpo branco combinava com o eu da parede que combinava com meus sapatos novos. eu não queria ir embora dali, nunca mais, nunca mais, nunca mais ninguém me tira daqui, eu gritava. não vou sentir fome não preciso de nada façam de conta que morri, me esqueçam, eu já não serviria mesmo mais para ninguém, não preciso de ninguém. eu tinha uma sílaba, uma cadeira, uma meia cama e três pares de sapatos novos da minha cor preferida. eu e o eu escrito na parede nos tornamos cúmplices e com o passar dos dias e noites começamos a correr perigo juntos. comecei a desejar o eu sem a parede junto e o eu também não queria mais viver colado nela. eu estava apaixonada pelo eu da parede e o eu da parede também me queria, mas ele era da parede, não meu. a parede, vermelha que era, passou a ficar ciumenta e não me queria mais lá, me mandou vestir a roupa e ir embora, os sapatos, disse ela, eu podia levar. pedi pra ficar, implorei e ofereci dinheiro. não adiantou. mas ela não amava o eu, ela só não queria que ele fosse embora para ser meu. pedi mais uns dias e ela me deu três, depois disso rua. dediquei meus três dias a fazer promessas para o eu que era da parede e que não queria mais ser. tive que ir embora.
05/11/08
não vou mais pedir desculpas, eu preciso descansar. alguns sinais se apresentaram e eu não vou mais esperar que alguém me diga ou me pergunte, é sozinha mesmo que caminho, vou só continuar. escondi tudo de mim, não quero ver, pode apagar e desistir, não vou mais continuar. aquilo tudo ficou velho, outra cor, não reconheço o mesmo hálito, vou modificar e entregar o que chegou e vai chegar. olha lá, está passando um novo filme e ele diz muito de mim, vou escrever o que senti pra depois continuar. vou entregar todos segredos, sem mentir ou inventar, apartar todos os medos, não vai doer ou machucar. pendurei alguns desenhos e agora durmo a observar, cogitar novos anseios que adiei por adiar. escapei de um quase incêndio, ainda tenho febre mas prefiro não contar, depois eu me arrependo e não consigo perdoar. a minha culpa é muito triste e eu preciso me entregar, abrir de novo as pernas e viver só de gritar. vou esquecer de tudo, prometo, vou tentar, vou ser melhor comigo e impedir qualquer perigo e fugir todos os dias e correr e festejar. vou limpar agora a casa, receber outro assunto e me despir e me apertar, e por fim vai ter um dia que não vou mais acordar, não sentir mais a vergonha de ser triste e não saber como escapar.
04/11/08
o tempo
o tempo se ocupa em chacoalhar meus quadris. imagino outras espécies. faço planos sem sucesso. engano o tempo que insiste em esconder todo futuro. não vejo nada. vejo tudo. exagero. quase acredito. e volto a pensar no tempo, no caminho e nas voltas e curvas. meu corpo me ascende durante a madrugada na distância entre a última vez e o que não existe. das últimas vezes eu fugi, não havia ânsia, não havia nada. agora há. me enganei de propósito na distância que inventei e agora fantasio escuridões e endereços. posso suspeitar, tatear cabelos e pele, pelos e espaços, me esfregar em minha falta de lucidez. vou inventar também todos os caminhos para conservar o que ainda consigo lembrar. em minha cabeça se misturam cheiros que descem, descem, descem. a cada dia encontro uma novidade, um novo jeito estranho de me aproximar. tenho sentido calor, me apalpado enquanto tiro a roupa enquanto não sinto frio. quando tudo estiver consumado vou querer voltar e ver de longe o que me aconteceu, pedir explicações que não sei dar, não quero dar, não me importam. vou contar alguma verdade pro tempo poder passar. vou fingir, esquecer e não me perdoar.
um dia
é em silêncio que divido algumas palavras, me aproximo - um pé depois o outro - suspiro. faço de conta, brinco de ir embora, disfarço pequenos recados e depois escrevo aqui. te conto algum dia o que andei pensando, te explico porque fico triste e depois esqueço. eu nunca existi, inventei tudo isso só pra ter algum assunto. imaginei alguns lugares, comprei umas flores e enfeitei meu dia para te dar de presente numa noite bem escura e demorada. vou te contar tudo isso. algumas frases e pronto, você vai entender. espio pela fresta esse seu jeito longe e abundante, seus gestos miúdos entregam alguns segredos e você nem percebe, mas estão todos anotados aqui, fiz uma lista.
03/11/08
o convite
e nos olhamos por um tempo longo e forte pescando o infinito, segurando o tempo de não voltar. dissemos pouco, palavras jogadas que guardei entre meus dedos e agora escondo para sempre. vamos dar uma volta, quem sabe, pular alguns abismos, soprar idéias maliciosas nos ouvidos mútuos e receptivos. durante a noite penso no que aconteceu, não aconteceu, se aconteceu. aqueles olhares me convidaram de alguma forma, algum ânimo chegou e agora me arrasto enquanto durmo, me assanho sonolenta e quase sorrio, quase. pode ser um vulto de alegria bem alegre e passageira e pode também não se medir. pode ser apenas confusão. não me prendo a fatos, só a olhares. imagino, desconfio, me esquento.
02/11/08
14/10/08
o perdão
eu queria ser perdoada. queria alguém que pudesse fazer isso por mim. de forma que todos os meus males e desaforos me escapassem, não me cobrassem no sono que não vem. vivo em susto de me descobrirem. no meio de estrada nenhuma vão me deixar e me esquecer sofrendo o castigo de não ser mais nada. por que me olham assim? não existem acusações, eu imagino. e não durmo. é preciso ter alguém a quem pedir perdão. que bom ser também sozinha, que útil. a gente pode dar uma volta lá fora, você me conta seus planos, me fala de ontem, mas não me distraia nem se demore.
porque sim
mas na verdade não era mesmo nada disso que eu ia dizer. sinceramente tudo o que eu te disse sempre foi mentira. eu ia inventando e você acreditando na possibilidade rara de existir, sorrindo e fazendo planos para minhas invenções. enganei seus dias, roubei suas noites e tentava me arrepender durante a madrugada, mas o sono vinha e eu adiava. no fim minha trapaça venceu e depois que me enjoei fui embora e deixei vc deitado sobre o tapete acreditando e esperando a próxima semana. dizer a verdade seria seu fim. e você queria que eu dissesse a verdade para quê mesmo? honestamente, muito aqui dentro, eu sempre desejei parar de enganar, mas seria muita crueldade tirar seu conforto, sua cama e sua vida apaziguada pela minha caridade em vigília. você não me perdoaria. os restos eu guardei numa caixinha e coloquei pra enfeitar a sala, vez ou outra alguém abre, olha, acha bonito e aprecia meu bom gostoso para móveis e decoração. não tenho talento, o melhor é fazer de conta que a gente nunca vai morrer e que está tudo honestamente perdoado.
o gênio da lâmpada
eu queria fazer um feitiço em mim, fugir de mim, apelar. adiar o mundo pra depois, desligar minha angustia e dormir no escuro com você. vamos tentar costurar os pensamentos, vamos começar agora, escondendo o que não deveria ser pra mim. eu quero casar com você depois de fazer um feitiço em mim. vai ser tão feliz. mas eu nasci errado, e me perdoe por estar avisando só agora. quem sabe eu não jogo tudo fora e me empenho em acordar mais cedo. você ia gostar, não ia? eu adoraria jurar pra você, mas não posso mentir tanto assim. você acredita em mim, não é? acredita, ao menos, que o que eu queria mesmo era fazer um feitiço em mim? a gente disfarça... o problema é que ouço vozes e acabo indo, saio escondido e volto antes de você chegar, e te espero sentado como se não tivesse novidades que não posso te contar. eu queria que pouco me bastasse, você bem que merecia isso. mas não posso mentir tanto assim. eu queria fazer um feitiço em mim, esfregar a lâmpada e ter três desejos, repetir três vezes o seu nome, dar uma festa em mim.
24/09/08
10/09/08
para depois
continuar até em dias mais amargos, adormecer por precisar esquecer por horas os dias difíceis. deixá-los descansar. e mesmo assim eu atravesso aquela avenida famosa para buscar não sei o quê. encontro as montanhas de antes e novas notícias pra embrulhar. por aqui nada se repete, faço promessas em voz baixa, peço num ou noutro ouvido um segredo breve, muito breve. tenho o rosto um pouco quente e minha cabeça balança dizendo sim e dizendo não, quando na verdade nada sei. não há gestos certeiros a serem lançados, está tudo em suspenso até o próximo apito, até o próximo ataque.
28/08/08
halley nº 2
me lembro bem das noites em que chovia forte e ficávamos esperando a chuva passar, sem nenhum motivo importante. tinha uma musiquinha que tocava na casa de um vizinho e que agora não toca mais. também não chove mais e nós já estamos longe. acho que estávamos em outro país, disso não tenho certeza. sei que eram dias longos e nossos e tudo era somente para nós. não sei responder se éramos mais felizes do que pensamos ser agora, nem ao menos sei se poderíamos medir este fato. mas sei que deixei alguma coisa por lá, naquela casa com aquela janela que dava para o nada. tinha um cheiro também, um cheiro engordurado que suportávamos porque existiam coisas lá fora que nos tomavam mais tempo. lembro que a gente dançava e ria, praticamente era só isso, e não era pouco. o que você está fazendo agora?
27/08/08
22/08/08
these open doors
essas portas abertas e nada a impedir. venha, arraste os móveis e me deporte daqui. mude tudo de lugar, convença-me a não ficar para sempre. desamarre minhas mãos, está tudo aqui, é só entrar. em breve outro tempo chegará, os dias têm se mostrado promissores e estou esperta demais, alegre demais. posso ver o futuro se vc quiser, te conto em segredo tudo o que irá acontecer, tenho visões precisosas sobre o que se aproxima. imagino as portas batendo, o vento voando meus papéis e frases escritas no chão. minhas mãos-seus cabelos-promessas.
02/08/08
não existem surpresas e nem novidades se aproximam, no entanto espero todos os acontecimentos e todos os fins do mundo. aos solavancos e triunfos organizo em mim gestos e passos de felicidade futura, todos os lugares eu já sei.
21/07/08
esperando
as coisas importantes que deixei para trás já não me deixam dormir. não deixei que nada escapasse, não sei verdadeiramente como tudo aconteceu, não vi acontecer. agora esse inferno insistente me apavora, me ronda e parace não desistir. qual é a estrada? onde é a próxima caverna? eu quero entrar sem bater. preciso escapar desses dias e noites sem ordem, nem saberia numerá-los, caso você me pedisse. vou buscar salvação em algum lugar que não seja no passado e volto logo.
07/07/08
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a realidade farta não atende minhas vontades. invento notícias para o dia seguinte, faço planos de fuga e acordo no mesmo lugar. qualquer despejo me interessa.
24/05/08
o navio
Passei semanas em um navio e agora estou de volta. Mudei de idéia e de dor, sou uma novidade para mim e sou minha única provocação. Tenho um rosto um pouco pálido. O tempo que passei dentro do navio foi silencioso demais, o que me obrigou a ouvir meus próprios ruídos. Eu ria, à medida que ia entendendo. Talvez, em outro lugar eu tivesse chorado, mas no navio não. Qualquer notícia nova sobre mim sempre fez revelar a minha perdição, e algumas vezes eu sofri, mas ali, no navio, era como se eu tivesse morrido, escapado, e eu só enxerguei as vantagens de ser quem eu sou. Em volta de mim só havia o mundo, e o mundo, nesse caso, era o mar, o céu e o vento, muito vento. Estava ali há um bom tempo quando me dei conta de que já não estranhava mais aquela realidade, e pela primeira vez a minha lucidez não me espantou. Eu passava os fins de tarde na ponta do navio, como pode o céu ser azul? Como? Era o que eu pensava. Eu olhava o mar em volta de mim e pensava que se eu quisesse eu poderia me jogar. Tudo é somente se eu quiser, foi com esse pensamento que saí do navio. Não posso dizer que simplifiquei minha vida ao entender isso, mas agora eu aceito melhor o infinito. Eu nunca mais quero entrar em um navio, não combino com o mar, mas eu precisava ter estado ali junto às coisas que não acabam. Tenho inveja das pessoas que permitem que outras façam delas o que quiserem. Eu gostaria de poder descansar um pouco, saber deixar que outros me tivessem conforme suas vontades. Eu queria que me batessem. Gostaria de não precisar dizer muita coisa, mas não há retornos quando a escolha que se fez já existe há muito tempo, há muito tempo eu sou a mesma e, portanto, não alimento certas esperanças. Gosto do que me tornei, embora seja embaraçoso. Gosto de saber que tenho noção do meu fim e do que jamais serei. No navio a minha tristeza foi modificada e eu percebi. Para sempre eu estarei dentro daquele navio no meio do mar indo para o nada, sempre estive, aliás. Mas eu não sabia que era tão simples assim. Eu entendi que também é preciso não entender. Uma tarde, deitada ao sol, me dei conta de que nada é mais questionável do que tudo o que sempre existiu. É comovente. Depois do navio eu abandonei a puerilidade a qual estava presa. O que se pode afirmar é que o céu sempre estará no mesmo lugar em qualquer lugar que se vá, a chuva sempre virá e não há vento que desista nem raio que não aconteça, e se nós nos acostumamos a esse mundo lúdico e servil não há então espaço para dúvidas. Tenho a impressão de que entendemos tudo errado, no navio pude compreender isso com muita clareza. Passei tempo demais percebendo as coisas incertas e o que eu fiz de mim já não morre, mas tenho novidades, estou um pouco encantada com o que pude conhecer a partir do que já sou. É mais tranqüilo agora, é confortável entender que não sou nada diante do interminável. Eu vou terminar da maneira que eu escolher terminar, agora eu sei isso. Eu poderia ter terminado no navio, maravilhada pelo céu anônimo e azul, podia ter encontrado uma maneira de não voltar, era tão fácil eu me afogar. Mas eu escolhi voltar e viver conforme o que aprendi no navio. A vida é boa e não é séria e nem tão grave, como eu acreditava antes. O amor existe e a falta dele também, mas isso são apenas dois extremos entre muitos. Não há quem dê ou receba de outro o que quer que seja, amamos ou odiamos para nós mesmos, é em nossa própria defesa que desejamos sentir alguma coisa. Não há o que pensar, não há. Está tudo aqui, está tudo pronto, poderíamos nos deitar ao sol e apenas esperar. Não existem novidades, a não ser as íntimas.
fome
As noites atrozes finalmente haviam ficado para trás, era o que ele pensava enquanto arrumava sua cama naquela manhã. Singelos sonhos freqüentavam seu sono entregue e devoluto. Movimentos banais tomavam ar de novidade, fechar os olhos e depois abri-los e não se assustar com o pânico das horas iminentes era quase um luxo, uma mordomia. Era bom viver, era bom, dizia pra si mesmo em voz alta, apoiado na grande janela aberta de seu quarto agora limpo e inundado de boas promessas. Tinha o peito, os olhos, a boca e os cabelos absolvidos, o perdão havia chegado até ele. A cada minuto uma nova sensação esquecida. Embebedava-se em tanto reencontro.
Ele, que tantas vezes julgou não ter espaço suficiente em seu corpo para abrigar tanta aflição, percebia agora faltar-lhe o mesmo espaço para tamanha euforia. Eram tantas as vontades e desejos que suas mãos não se mantinham quietas, os ombros tranqüilos confirmavam a desistência de toda agonia dos dias passados. Entendeu, naquela manhã, a necessidade que as pessoas têm de gritar quando estão extasiadas, embriagadas em contentamento. Tinha, enfim, o corpo inundado de infinitas possibilidades. Era um homem possível naquela manhã preciosa. Tinha uma beleza que, mesmo nos dias ruins, não o havia abandonado. Seu rosto indiscreto e seu olhos de cobiça nunca deixaram de insistir. Tinha olhos comíveis. Agora, voltava a saber de seu próprio fascínio, queria de novo plantar suas mãos num pedaço gostoso de carne e emprestar sua delícia com generosidade e avidez. Existia alguma violência em seus gestos e seus apertos. Embora se sentisse doce naquela nova vida, tinha nos braços um abraço quente, tinha um suor quente, e dedos hábeis conhecedores de caminhos. Eu, de longe, espiava passiva e fazia planos para aqueles dedos hábeis. Ansiava por queimar-me naquele corpo novo, febril, violento e doce. Era um segredo meu. Em silêncio desejava aquelas pernas me apertando, comprimindo meu sangue e puxando meus cabelos.
Ele se sentia devolvido a vida e eu fazia planos de devolver-lhe ainda mais, um susto atrás do outro é o que pretendia lhe oferecer. Espasmos, câimbras e calor. Eu chegaria na hora certa, com o cheiro certo e o silêncio exato de um corpo faminto e engolidor. Eu me jogaria, empurraria meus olhares vulgares sobre sua pele doce e voraz e gritaria em seus ouvidos curiosos. Espalharia-me em sua fome.
Ele, que tantas vezes julgou não ter espaço suficiente em seu corpo para abrigar tanta aflição, percebia agora faltar-lhe o mesmo espaço para tamanha euforia. Eram tantas as vontades e desejos que suas mãos não se mantinham quietas, os ombros tranqüilos confirmavam a desistência de toda agonia dos dias passados. Entendeu, naquela manhã, a necessidade que as pessoas têm de gritar quando estão extasiadas, embriagadas em contentamento. Tinha, enfim, o corpo inundado de infinitas possibilidades. Era um homem possível naquela manhã preciosa. Tinha uma beleza que, mesmo nos dias ruins, não o havia abandonado. Seu rosto indiscreto e seu olhos de cobiça nunca deixaram de insistir. Tinha olhos comíveis. Agora, voltava a saber de seu próprio fascínio, queria de novo plantar suas mãos num pedaço gostoso de carne e emprestar sua delícia com generosidade e avidez. Existia alguma violência em seus gestos e seus apertos. Embora se sentisse doce naquela nova vida, tinha nos braços um abraço quente, tinha um suor quente, e dedos hábeis conhecedores de caminhos. Eu, de longe, espiava passiva e fazia planos para aqueles dedos hábeis. Ansiava por queimar-me naquele corpo novo, febril, violento e doce. Era um segredo meu. Em silêncio desejava aquelas pernas me apertando, comprimindo meu sangue e puxando meus cabelos.
Ele se sentia devolvido a vida e eu fazia planos de devolver-lhe ainda mais, um susto atrás do outro é o que pretendia lhe oferecer. Espasmos, câimbras e calor. Eu chegaria na hora certa, com o cheiro certo e o silêncio exato de um corpo faminto e engolidor. Eu me jogaria, empurraria meus olhares vulgares sobre sua pele doce e voraz e gritaria em seus ouvidos curiosos. Espalharia-me em sua fome.
21/05/08
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As possibilidades, a alegria e os desejos abstratos só existem na ausência de promessas e definiçôes. Só existe eternidade em não esperar, se nos fingíssemos de mortos os dias passariam mais leves. Vou fingir que não sou, para sempre vou fingir que não sou, porque entendi que a alegria é vermelha e discreta, e só chega em dias não planejados. Já não faço pedidos, vou viver levando sustos.
começo meio fim do começo (para penna prearo)
A realidade, embora me enjoe, também me serve. Mantenho os olhos disfarçadamente abertos - clandestina - depois os fecho definitivamente e reinvento modalidades cabíveis. Só não me ausentei ainda porque sou eu quem escolho o que quero dos dias e das pessoas que me chamam pelo nome. As vezes, finjo que não as ouço. E não ouço mesmo. Manter-me viva, noite após noite, até que me envaidece, porém, se me tivessem oferecido alguma opção eu escolheria transitar por um lugar estranho que satisfizesse meu egoísmo passageiro. Carrego comigo uma lista de felicidades e impropérios, são meus objetivos surreais. Algumas imagens me bastariam, delírios passageiros no deserto que eu inventei para não morrer cedo e intacta.
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Em silêncio finjo que não tenho medo. Disfarço os terrores dando voltas pela casa, abro a janela maior e respiro a vida alheia que não conheço e não me serve. Com meu rosto disposto eu distraio os que me cumprimentam e esperam um sorriso como retorno - não há necessidade que me conheçam. Milagres me atraem, embora não existam. A vida vai passar, e o meu medo também. Também?
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As novidades envelhecem rápido em meu coração. Você duvida, você não sabe, você não quer. Você ainda amanhece em mim, principalmente quando a noite me traz um sonho seu. Sua voz anda distante, mas ainda me conta segredos sobre sua vida secreta. O seu silêncio me incomoda e me atrai estrangulando meu pescoço com perguntas que eu não faço. O tempo está passando e não há tempo que dure em mim, não me dou bem com esperanças.
boas novas
A proximidade suspeita de qualquer felicidade sempre me fez mudar de assunto. No entanto, algo tem insistido em me convencer e se aproximar. Estou falando de calores. Tenho esquentado minhas pernas e meus dias dando chance a doçura, deve haver alguma em mim. Deve haver um infinito que me sirva e que faça de mim o que bem entender, deve haver algo mais grave. As vezes sinto vergonha em desfrutar da esperança, como agora. Talvez me falte a coragem dos ignorantes, a simplicidade dos que esperam em vão imaginando vultos e fabricando razões. Não sei do que estou falando, não sei o que estou pedindo ou esperando, mas tenho os olhos mais quentes e convidativos. A vida me agrada.
eu nunca tive um cartaz de cinema
Eu nunca tive um cartaz de cinema.
Eu não tenho memória, meu passado me ignora.
Eu nunca tive coragem de ser cruel o suficiente.
Eu nunca estive em lugar algum que não fosse em mim, e ainda assim não me pertenço.
Eu não entendo de fins; os dias acabam e eu continuo.
Talvez eu não morra nunca - o deserto combina comigo.
Eu nunca tive um cartaz de cinema.
Meu rosto é uma constante despedida, sou pronta para o adeus. Prefiro assim.
Eu nunca tive medo de mentir. Eu minto.
Eu nunca tive ímpetos vís. Eu nunca quis matar por amor.
Eu vou fugir.
Eu não tenho memória, meu passado me ignora.
Eu nunca tive coragem de ser cruel o suficiente.
Eu nunca estive em lugar algum que não fosse em mim, e ainda assim não me pertenço.
Eu não entendo de fins; os dias acabam e eu continuo.
Talvez eu não morra nunca - o deserto combina comigo.
Eu nunca tive um cartaz de cinema.
Meu rosto é uma constante despedida, sou pronta para o adeus. Prefiro assim.
Eu nunca tive medo de mentir. Eu minto.
Eu nunca tive ímpetos vís. Eu nunca quis matar por amor.
Eu vou fugir.
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Eu havia me esquecido quanta novidade pode haver em não morrer ainda. Ao encostar-se em mim você saberá, antes disso não me espere. Vivo em segredo e continuarei assim. Em qual lugar de seu corpo fica sua coragem? Me mostra?
o que não tem descanço
Eu queria ter uma idéia brilhante e escapar de você. Eu queria ter uma idéia brilhante e nunca mais escapar de você. Eu queria ter uma idéia brilhante sobre como inventar dias leves e alheios. Queria acreditar na brilhante hipótese de não mais não querer o que insistem em me dar.
Sobre mim quase não falo, mas também não invento. Meu incômodo é mais claro e embaraçoso que tudo o que me convence. O que não gosto não muda, enquanto a condição do que me agrada não oferece certezas finitas; sou mesmo somente minha e o que as pessoas querem de mim, eu dou. Eu não finjo, garanto que não. A confiança que ofereço é mesmo para ser oferecida; não há esforço algum em ser a surpresa que sou a qualquer um que não seja eu. Faz sentido. Não há quem não tenha em si mesmo algo que não lhe sirva. Não reparto minha tristeza, não saberia. Raramente me lamento perante outros, e se o faço, rapidamente arrependo - me por ter desapontado os que dependem da minha abundância. Não sei fazer de conta, por isso desapareço do convívio das pessoas com certa freqüência; minha solidão não sai de casa para dançar, não comemoro o meu desamparo. Gosto de chorar e remoer pesares e falências enquanto não durmo. A tristeza pela tristeza me interessa. Tudo em mim é muito e depressa. Sei que meu desassossego incomoda e cansa os que passam, mas gosto assim, por mim eu nem dormiria. Sei quando sirvo, sei onde caibo. Só é pena não caber em alguém que caiba em mim. Alguém que me baste por saber sobre mim o que eu mesma já sei. Eu só caberia em alguém que percebesse e compreendesse tudo o que aparentemente não sou. Preciso de alguém que perceba minhas piores vergonhas e que, comigo, somente divida as malícias do corpo. Alguém que me coma com a intimidade silenciosa e rara dos defeitos. Um olhar perigoso e suspeito, como deve ser o meu o meu. Certezas bastam as minhas.
Sobre mim quase não falo, mas também não invento. Meu incômodo é mais claro e embaraçoso que tudo o que me convence. O que não gosto não muda, enquanto a condição do que me agrada não oferece certezas finitas; sou mesmo somente minha e o que as pessoas querem de mim, eu dou. Eu não finjo, garanto que não. A confiança que ofereço é mesmo para ser oferecida; não há esforço algum em ser a surpresa que sou a qualquer um que não seja eu. Faz sentido. Não há quem não tenha em si mesmo algo que não lhe sirva. Não reparto minha tristeza, não saberia. Raramente me lamento perante outros, e se o faço, rapidamente arrependo - me por ter desapontado os que dependem da minha abundância. Não sei fazer de conta, por isso desapareço do convívio das pessoas com certa freqüência; minha solidão não sai de casa para dançar, não comemoro o meu desamparo. Gosto de chorar e remoer pesares e falências enquanto não durmo. A tristeza pela tristeza me interessa. Tudo em mim é muito e depressa. Sei que meu desassossego incomoda e cansa os que passam, mas gosto assim, por mim eu nem dormiria. Sei quando sirvo, sei onde caibo. Só é pena não caber em alguém que caiba em mim. Alguém que me baste por saber sobre mim o que eu mesma já sei. Eu só caberia em alguém que percebesse e compreendesse tudo o que aparentemente não sou. Preciso de alguém que perceba minhas piores vergonhas e que, comigo, somente divida as malícias do corpo. Alguém que me coma com a intimidade silenciosa e rara dos defeitos. Um olhar perigoso e suspeito, como deve ser o meu o meu. Certezas bastam as minhas.
para ninguém enfim
Não existe um só dia em que eu não fale com você. Imagino seu trejeitos e espantos. De que espécie serão seus pensamentos tardios e volúveis? De qual lugar de mim você ainda não foi embora? Eu resisto tanto que se talvez você pudesse suspeitar poderia também não voltar mais, como realmente não voltará. Não quero sua sombra em mim, seus delírios jamais voltarão a se misturar aos meus. Já não acordo em vão e sou menos traiçoeira.
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Se houvesse você, bem que poderia ser em mim. Se eu fosse possível, e também eu existisse, poderia ser você a não me deixar ir embora. O tempo passa e os dias me corroem por distância e dissabor, e eu resisto em mãos alheias que não quero que fiquem. Eu quero ficar.
verde
O amor e outros incômodos nunca serão compreendidos da maneira que esperam saber, e talvez essa insistência tola em compreender seja a explicação para o ódio corriqueiro do amor que vira ódio. Estranho? Não acho. As coisas importantes demoram.
Mesmo que nada se descubra, não morrer é estar atento aos avisos enquanto não se morre. Recados são respostas para perguntas que não fizemos por estarmos ocupados com duvidas medrosas que não mudariam caminho algum.
A distância tem me surpreendido vastamente, é disso que quero falar. É de longe que tenho me alimentado de sorte e exatidão. O mundo é longe. Talvez eu seja invisível como as coisas que existem baseadas apenas em suspeitas. É tão mais seguro suspeitar. Eu prefiro. Eu suspeito que você exista como quem nasce e morre todos os dias. Para que tanta gente no mundo? Você saberia me responder? O que me interessa é silencioso e íntimo; e tudo o que eu gostaria de saber não depende de perguntas e quando eu entendo é de repente que eu entendo. Eu entendi, por exemplo, que talvez eu precise fugir de você, mas eu não quero. Quero continuar. Sutil e invisível. Sem o escândalo das grandes descobertas. Em algumas noites tenho certeza de que você não existe, e pensar assim preenche meu corpo e minhas pernas se abrem quentes para você não chegar. Eu sei que você não existe em lugar algum, eu sei. Você deve ter sido um toureiro famoso e trágico de uma história vermelha e antiga, e já deve estar morto há muito tempo. Sempre me senti privilegiada por ter minha própria via e poder escolher minha solidão. Sua solidão se parece com a minha, e foi isso o que me fez ficar. Gosto do fato de você quase não existir. O que tenho por você é muito íntimo. Íntimo é uma palavra linda, você não acha? Você tem muitos segredos, não têm? Eu posso imaginar a natureza do que você esconde, e isso me assanha. Não te ver exercita minha luxúria, desconfiar de sua existência confirma minha bondade perigosa. Não perca o seu tempo com minha sinceridade se ela te assustar. Eu não preciso que você exista, quero apenas que você continue em mim de maneira atemporal. O mundo é longe e mesmo assim nós dois coubemos nele. Pode ser perigoso.
Mesmo que nada se descubra, não morrer é estar atento aos avisos enquanto não se morre. Recados são respostas para perguntas que não fizemos por estarmos ocupados com duvidas medrosas que não mudariam caminho algum.
A distância tem me surpreendido vastamente, é disso que quero falar. É de longe que tenho me alimentado de sorte e exatidão. O mundo é longe. Talvez eu seja invisível como as coisas que existem baseadas apenas em suspeitas. É tão mais seguro suspeitar. Eu prefiro. Eu suspeito que você exista como quem nasce e morre todos os dias. Para que tanta gente no mundo? Você saberia me responder? O que me interessa é silencioso e íntimo; e tudo o que eu gostaria de saber não depende de perguntas e quando eu entendo é de repente que eu entendo. Eu entendi, por exemplo, que talvez eu precise fugir de você, mas eu não quero. Quero continuar. Sutil e invisível. Sem o escândalo das grandes descobertas. Em algumas noites tenho certeza de que você não existe, e pensar assim preenche meu corpo e minhas pernas se abrem quentes para você não chegar. Eu sei que você não existe em lugar algum, eu sei. Você deve ter sido um toureiro famoso e trágico de uma história vermelha e antiga, e já deve estar morto há muito tempo. Sempre me senti privilegiada por ter minha própria via e poder escolher minha solidão. Sua solidão se parece com a minha, e foi isso o que me fez ficar. Gosto do fato de você quase não existir. O que tenho por você é muito íntimo. Íntimo é uma palavra linda, você não acha? Você tem muitos segredos, não têm? Eu posso imaginar a natureza do que você esconde, e isso me assanha. Não te ver exercita minha luxúria, desconfiar de sua existência confirma minha bondade perigosa. Não perca o seu tempo com minha sinceridade se ela te assustar. Eu não preciso que você exista, quero apenas que você continue em mim de maneira atemporal. O mundo é longe e mesmo assim nós dois coubemos nele. Pode ser perigoso.
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Espero não ser a mesma em todas as mentiras, espero não precisar. Espero continuar inventando esperanças passageiras; espero mudar de idéia para não envelhecer e para não esperar o que já não quero mais. Espero fugir um dia, para a Hungria, talvez. Faço de conta e invento todas as respostas possíveis, experimento algumas e não me convenço nunca. Sou paciente com as grandes mudanças, suporto bem as irresponsáveis demoras. Eu brinco de esperar Deus.
jennifer (para bruno morais)
Estamos bastante longe, Jennifer, os meses nos separam sem dor. A saudade é bem-vinda e a ausência é cabível. Tenho estado acordada demais nos últimos dias, ou anos, não sei. Quase sei dizer sobre o futuro, leio minhas mãos nos fins de semana. O presente apenas me distrai com convicções momentâneas. Tenho dançado pouco ou quase nada, a solidão tem me feito bem durante a madrugada. Em que será que pensa você agora, Jennifer? Será que ainda tem os mesmos olhos tardios? Suspeito que tenha vontade de gritar em outra língua para que entendam sua coerência.Grite, Jennifer, eu ouvirei daqui. Quando você voltar vou lhe dizer as mesmas coisas e você há de se assustar, você sempre se assusta em vão. Acho graça em seu pavor infantil, seu desespero me acalma. Não se preocupe comigo Jennifer, estou aqui a me perder em qualidades duvidosas. Minhas novidades são íntimas demais para que eu possa lhe dizer em publico, confessarei depois. Estamos sós no mundo, Jennifer, você sabe disso, não? E você sabe o quanto isso pode ser bom, não sabe? Que bom que o mundo é grande, que bom. Você entende agora como são inúteis os lamentos? Suspire, Jennifer, você está no topo do mundo.
conto de verão
Disse a ele que minha vida era muito longa e que talvez ele viesse a se assustar com minha falta de eternidade para quase todas as coisas. Disse também que eu não era boa o suficiente para o amor, e que o amor me enjoava com suas lambidas fora de hora. Mas eu disse que precisava dele mesmo assim, fazia questão de sua presença perseverante, pode ficar, arrisquei. E ele ficou, de verão em verão, agüentando meu calor e meu suor, suportando minhas mentiras de criança que não sabe o que fazer porque não sabe o que sentir. O meu amor demora, o meu amor existe assim: dia sim, dia não. E enquanto espero o fim da chuva, penso e peço: 'venha, amor, venha e me encha dos medos do amor'. Mas os medos que chegam e moram na mesma casa que eu, são medos sozinhos e meus. Ele foi embora, desistiu de esperar um milagre. Depois voltou e eu o recebi. Voltou e não pediu favores, disse que acreditava na sorte. Aceito sua oferta, disse a ele, é claro que ele pretendia mais da vida que lhe deram, mas ainda assim suportou os dias pequenos.
para poucos
E não podendo ser dois, levou a vida sabendo muito de si mesmo e assustando-se a cada novo segredo terrível. Então é assim viver, perguntou-se finalmente. Sim, é assim, pôde ouvir em seu ouvido. Dispensou a dor e sentiu-se um privilegiado ao compreender sua secreta solidão, poucos compreendem. O mundo é grande, o mundo é grande.
a vulva e Deus
A vulva disse pra Deus: Deus, santo Deus, que canta em meus ouvidos, diga-me o que pensava enquanto projetava tão cheirosa e tão minha vulva? Deus nada disse. Olhou-a por segundos compridos, em busca de resposta que não vinha pronta. Disse então a vulva: Vamos, ó Deus meu, que me criaste cheirosa e oferecida, diga-me num rompante sobre sua invenção. E então disse Deus com sinceridade de Deus: ó vulva mortal, te fiz para o pecado do amor e do pouco amor, e para andar pra lá e pra cá e para só depois voltar pra mim, assim num dia à toa, para que eu possa viver a te esperar. Sinto teu cheiro voltando, teu cheiro voltando.
tão cheia vida
Era para tudo estar suspenso. Era. Mas não está. Era para o mundo ser um pouco menos e uma chuva fina e conselheira estragar meu dia e meu cabelo. Era. Mas eu gosto assim. Era para tudo ser verde, um verde estranho e decadente no cinema estremecendo uma canção antiga e traiçoeira implorando uma dor qualquer que não dói mais. Era. Mas já não tenho pequenas mortes. Era para eu ter esquecido o meu quarto cheio de intenções e apagado as luzes, como sempre, imaginando sombras no escuro que era para estar escuro e não está. Era. Era tanto e agora é mais (ou menos?). Era para estar faltando espaço dentro e entre, era para não caber. Era. E agora cabe. Era para ter segredos com os móveis e o banheiro e a parede do banheiro. Era. Mas são outros os lugares. Era para a história envelhecer e não ter fim. Era, era e era para ser somente eu e o que invento enquanto não durmo, enquanto não quero o que tenho, enquanto. Era. Mas agora é tanto. Era para ter ficado daquele jeito sem jeito por conta da infância e do resto de dor que escondi dos mais próximos. Era. Mas já não tremo em lembranças no meio do dia. Era para eu ir embora de agonia em agonia. Era mentira. Era. Agora eu minto menos, minto menos. Era para ter sido muito pouco em tão cheia vida e as horas não passarem e a noite não chegar e não trazer. Era para eu não ter desejado tanto por falta de motivos e calor. Era para eu ter me fisgado sem urgência e desonesta, em silêncio. Era. Agora eu grito e tenho ávidos quadris.
antes que eu me afogue
No excesso das horas que não prestam mais posso confirmar minha feliz condição. O tempo tratou de envelhecer e morrer minha mais antiga duvida, já não vivo em desespero, sou enfim uma pessoa e seus indícios. Escondo-me, mas não muito, entre um susto bom e um outro dia. Já não quero despedidas, nunca mais vou embora, e não ir embora era minha vontade secreta. Agora entendo meu passado e cada dia e cada noite e cada vez que não fiquei. É incrível como as coisas mais felizes que podem nos ocorrer não nos causem euforia, mas sim uma espécie de morte, de morte súbita. O amor é súbito, como eu.
ondas de calor
Adiei temporariamente minha ida ao fim do mundo. Eu tinha, guardado em segredo, um estilhaço de esperança para usufruir no caso de alguma sorte. Agora sinto ondas de calor durante o dia, tenho pensamentos suspeitos e quase me sinto livre. Estou convivendo melhor com a minha incerteza, uma vez que pude compreender que ela não irá embora, a não ser quando eu for também. Passei anos esperando o dia em que eu não duvidasse mais. Bobagem. Entendi definitivamente essa minha condição e, sinceramente, já não a desprezo mais. O que está em mim provavelmente deve ser mesmo meu, e eu sei que o tempo nos faz dono de todo tipo de coisa, inclusive das menos aconchegantes. Me apropriei finalmente da minha escassez. Se não sou capaz de sentir o mesmo amor todos os dias, o sentirei então da maneira que me cabe, pela metade. Amarei durante a noite prometendo a mesma intensidade para o dia seguinte e passarei a vida desonrando minhas promessas. O que me consola é que meus instantes são reais, mesmo que acabem depois, num dia próximo. Jamais me entreguei em vão e os futuros que prometi tinham em si a minha vontade de ser próspera. Tenho boas intenções e meus ímpetos são puros, quase infantis. Não é leviandade, é apenas uma deficiência pública: sou uma oferta efêmera e valho os lamentos de depois.
resposta
Não há medo algum em mim. Esse terror que sempre me ocupou e que respeitei como se respeita um medo, tem outro nome e motivo. Sei bem que o que importa são os motivos, apenas eles justificam os absurdos. O terror com quem divido a casa, os móveis e as visitas, é minha máxima proteção, é quem delimita até onde quero que cheguem até mim e, com pequenas variações, não permito nunca que ultrapassem certo ponto. Escondo-me enquanto outros olhos supõem me invadir. Olhar nenhum alcança além do que em mim quer ser alcançado. As minhas indagações e os meus motivos flutuam num rio que ninguém nada, ninguém jamais se afogará em mim e isso já é uma decisão antiga. Será que as outras pessoas são assim também, intransponíveis? É bem possível que sim. Me agrada muito a impossibilidade de conhecer alguém totalmente, é isso o que torna a vida viável. Ignorar, nesse caso, é a nossa única salvação, se é que temos ou esperamos por uma. Seriamos excessivamente selvagens se não nos escondêssemos, não teríamos esperanças e nos sentiríamos ainda mais tristes. A beleza, o amor e a gratidão devem estar no que se supõe ou se imagina, não no que se arranca. Eu evito certas perguntas, não gosto que queiram saber sobre mim, não gosto. A minha casa faz parte disso, aqui comigo estão quase sempre as mesmas pessoas, não gosto de visitas inesperadas, são decadentes. Gosto de gente que vai embora e que fica apenas o tempo necessário para que eu possa continuar suportando-as e elas a mim. Gosto das coisas que terminam e, sinceramente, desprezo alguns começos. O infinito só tem sentido na solidão.
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Ontem você me deu uma flor, que coloquei dentro de uma garrafa com água para que não morra cedo. Uma flor vermelha e oferecida. Não sei se é um engano, nunca sei. Sorrio quando quero, choro quando não suporto e espero enquanto posso. Eu quero ser uma flor vermelha que não morre nunca.
Do amor, conheço a metade. Invariavelmente, pego algum atalho e volto. Sou triste, este é um dos meus segredos. Certamente algo deu errado, deve ter sido lá atrás. Jamais saberei os motivos desse meu atraso, mas devem haver várias versões. O meu amor é uma espécie que morre em vão e sem despedidas.
Do amor, conheço a metade. Invariavelmente, pego algum atalho e volto. Sou triste, este é um dos meus segredos. Certamente algo deu errado, deve ter sido lá atrás. Jamais saberei os motivos desse meu atraso, mas devem haver várias versões. O meu amor é uma espécie que morre em vão e sem despedidas.
o labirinto
Os dias estão diferentes, meus apelos são outros e meu olhar anda disperso e sem notícias. Não há definições, só devaneios. Meu coração esbofeteia meu peito, dói. Procuro manter-me em silêncio e, atenta, espero algum aviso. Nada entra pela porta destrancada. Não ouço vozes e nem vejo vultos. Impacientes, minhas mãos aguardam algum destino, estão ansiosas em saber a quem as estenderei agora. Os dedos tentaram fugir na semana passada, os prendi na porta.
Ainda não percebi o momento em que devo começar a correr, não sei se haverá um. Não saber a direção do próximo passo é altamente angustiante. A tortura tem em si as desvantagens do infinito. Queria eu ser uma nuvem, branca, pálida e inalcançável. Rápidas vezes, quase fugi. Não pretendo escapar, porém, não reconheço ainda o lugar, o exato lugar onde devo parar e ficar e gostar de ficar e querer não voltar, e viver de gritar. Como devem ser leves as montanhas, apenas existem. Enquanto, eu, afundo minha incerteza num rio raso sem passado revolto. Estou pedindo socorro e os ecos não retornam. É do amor que eu fujo, sempre. Ele vem e eu disparo a correr sem caminho, sem calor. Dias atrás tomei uma forte chuva. Indiscutivelmente molhada, estive prestes a tomar a decisão de me atirar de uma vez desse arranha-céu que me olha de cima pra baixo e me chama de 'flor'. Quase fui. Mas acabei enfiando-me debaixo de uma árvore austera. Eu não quero me salvar, nunca quis. No entanto, recebi uma oferta, que poderia ser comparada a uma carta que vem do correio e uma letra bonita entrega todas as frases do mundo. Não quero nada que fique, mas ainda não quero que se acabe. É preciso que me amarrem.
Ainda não percebi o momento em que devo começar a correr, não sei se haverá um. Não saber a direção do próximo passo é altamente angustiante. A tortura tem em si as desvantagens do infinito. Queria eu ser uma nuvem, branca, pálida e inalcançável. Rápidas vezes, quase fugi. Não pretendo escapar, porém, não reconheço ainda o lugar, o exato lugar onde devo parar e ficar e gostar de ficar e querer não voltar, e viver de gritar. Como devem ser leves as montanhas, apenas existem. Enquanto, eu, afundo minha incerteza num rio raso sem passado revolto. Estou pedindo socorro e os ecos não retornam. É do amor que eu fujo, sempre. Ele vem e eu disparo a correr sem caminho, sem calor. Dias atrás tomei uma forte chuva. Indiscutivelmente molhada, estive prestes a tomar a decisão de me atirar de uma vez desse arranha-céu que me olha de cima pra baixo e me chama de 'flor'. Quase fui. Mas acabei enfiando-me debaixo de uma árvore austera. Eu não quero me salvar, nunca quis. No entanto, recebi uma oferta, que poderia ser comparada a uma carta que vem do correio e uma letra bonita entrega todas as frases do mundo. Não quero nada que fique, mas ainda não quero que se acabe. É preciso que me amarrem.
o corpo
Acredito que o corpo seja o lugar mais espaçoso do mundo. Há de tudo dentro de um corpo, inclusive o que julgamos ter perdido. Dentro do meu, os segredos se fazem maioria. Carrego eu mesma minhas próprias confissões. A intimidade se movimenta dentro de mim. Não há um só pedaço da minha carne que já não tenha levado um susto. Além de mim, somente meu corpo sabe o que nunca ninguém saberá. Em minha saliva estão as indecências que eu adoraria poder gritar pela rua. Meus ossos, por sua vez, tomam conta do que eu preferia não saber, durante o inverno meus ossos doem demasiadamente. Minha boca lúbrica esconde o que quase não consigo disfarçar, considero minha boca a parte mais escandalosa do meu corpo. Com as mãos, aperto as mentiras. Em meu rebolado moram as noites e os pecados que de propósito cometi e gostei. Na parte de dentro das duas coxas, guardo minhas mais bem sucedidas volúpias, que não seriam secretas se fosse possível descrever a delícia de uma lascívia. Meus poucos pelos silenciam minhas saudades, e são os únicos que sabem precisamente o número de vezes que chorei, são muito eficientes. Na pele fina do pescoço grudei minha coleção de delicadezas e algumas lascas de felicidade. Os delitos eu pendurei nos ombros, couberam todos. No meu abrir e fechar de olhos estão as vezes que traí, tenho cílios cansados. Atrás da minha orelha, misturados com os cabelos, estão os segredos alheios que vão diminuindo a cada chuva que tomo, desses eu não gosto. Os meus seios acomodam de maneira irresponsável tudo o que não faço muita questão de esconder, por isso, tenho seios fartos e quase sempre descobertos. A parte de baixo dos meus pés esmagam remorsos, culpas e arrependimentos. No céu da minha boca conservo o gosto amargo das mentiras que contei. O meu lado bravio e indomável é certamente o mais abundante e, para este, eu reservei a minha vasta língua. Pois não há nada que se compare a uma língua úmida; é ali que se encontram os êxtases reais. A minha língua é o pedaço mais importante do meu corpo, é onde eu principio. Os segredos da carne, da minha carne, são valiosos demais para mim e, a língua, abriga o absoluto.
se
Te vejo andar por aí. Observo a lascívia das ruas por onde pisa, os perigos que procura sem encontrar. É no silêncio que te amo, escondida atrás de uma árvore. Imagino teus pêlos e teus arrepios. Fecho os olhos e penso em seus dedos. Carrego comigo uma foto sua, que olho vez ou outra. Nosso enredo é feito de palavras poucas e longos olhares desavergonhados. Tenho fascínio por olhares desavergonhados, é de minha natureza. Sou abrupta nas questões do amor, não existe delicadeza alguma em meus beijos e apertos, é com violência que exerço minha ternura e ofereço alguma novidade. Sou uma ópera desesperada. Durante a noite faço de conta que a qualquer momento você possa entrar sem cerimônia e me arrancar os cabelos. Eu te daria tudo. Minhas horas seriam tuas e todas as respostas que não sei eu inventaria. Te convidaria para morar entre minhas pernas. Eu dançaria pra você. Te contaminaria com todos meus pecados e vinganças. Certamente você não tentaria fugir. Mas eu acabaria te abandonando, escapando durante a madrugada pra nunca mais voltar. Nós fugiríamos, eu e minha culpa.
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Minha memória abriga êxtases e estupidez. Diariamente sinto um sopro, acumulo segredos inconfessáveis, coleciono arrepios e sentimentos vis. Meus cabelos tratam de esconder o que não esqueci; embelezando vergonhas, espantos e algumas ruas que não esqueço. Disfarço bem. Encho meus olhos de graça e engano os inquisidores. Esconder-se é quase erótico. As mentiras que conto me assanham, preparam minhas pernas para um ardor iminente. A verdade amortece meu corpo disposto e minha boca quase não abre. Prefiro o langor de uma ilusão.
assim também
Quero alguém que coma meu coração. Uma boca diligente e alheia. Pretendo oferecê-lo, vermelho e afoito, a algum desconhecido faminto e desprovido de pequenos medos. Posso imaginar a cena: olhares sequiosos e cúmplices de um crime de amor. Depois, os dedos ávidos e longos do desconhecido sufocariam meus seios fartos de Ofélia, - mais um olhar - e, obstinado, rasgaria minha pele, cavando meus ossos com aflição agônica. Por fim, partiria meu peito ao meio, arrancando-me o coração e mastigando com volúpia meus segredos e dores, como um náufrago.
full
A falta de lucidez não me permite lembrar dos detalhes, que é onde certamente está guardado o ínfimo sentido do que aconteceu. É tão estúpido perder o controle, e é sempre o que mais perco, em troca de uma alegria mentirosa e passageira. Quando isso acontece, o que sobra são apenas vultos e sensações suspeitas. Balanço agora minha cabeça em busca de algo que me revele o que realmente aconteceu e, principalmente, o que senti, se gostei ou não, se foi bom, se doeu, e se quero mais daquilo que houve enquanto eu dançava. O que lembro com clareza é o fato de que eu dançava, mas isso eu sempre faço. É como se eu não fosse quem eu sou, como se não estivesse estado em lugar algum. Como se já não bastassem todas as perguntas que carregarei debaixo do braço para todo o sempre sem nunca obter resposta alguma, levianamente vou acumulando duvidas banais, cotidianas; que vão parar debaixo do mesmo braço por conta de um momento caprichoso. É como se eu tivesse fechado os meus olhos, tapado meus ouvidos, enquanto minha boca disparava segredos dispensáveis. Quando me dou conta, a noite se acabou, as luzes se ascenderam, e tudo o que houve foi pisoteado por mim enquanto dançava. E então, perco o sono tentando encontrar algum vestígio, alguma pista sobre o valor daquilo que perdi enquanto me perdia. Estou sempre procurando por mim mesma, nas ruas, nos banheiros e nas pessoas por onde passei. Deve ser por isso que a cada dia diminui em mim a minha própria noção, e a cada noite vou sabendo ainda menos sobre mim. Reconheço, sim, as vantagens dessa brutalidade. Provavelmente fui poupada muitas vezes, afinal existem coisas sobre mim que prefiro mesmo não saber, não lembrar. Não agüentaria viver por muito tempo se algumas noites longas e descabídas não me fossem roubadas pelos excessos. Mas posso imaginar também algumas felicidades que por ignorância rejeitei, rostos que esqueci e que poderiam ter me dado alguma alegria, passageira que fosse. O que me consola é que enquanto me perco me refestelo na fugaz felicidade dos inconseqüentes
mulherzinha
Ao ver aquele rosto no meio de tantos teve idéias rápidas e sem importância. Ao se deitar,o rosto de homem aqueceu seu quase sono, pensava naqueles grandes olhos. Já não havia como escapar. Entregara-se então sobre uma calçada áspera e deserta, como se naqueles grandes olhos estivesse sua chance preciosa. Nunca havia gritado tanto, não que não tivesse tentado. Mas aquilo sim devia ser isso que chamam ardor, pensava. Antes de dormir relembrava cada gesto e gemido, em seus ouvidos ainda ecoavam a saliva abundante. Porém, tinha a certeza de que não desejava vê-lo mais. Tinha tido o suficiente e estava grata.
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Enquanto durmo imagino possibilidades vãs. No escuro faço versões descaídas para um mesmo desejo. É durante a noite que encho meu coração de malícia e faço planos promíscuos. Minha violência é uma valsa involuntária.
A fuga
Não sei como se deu, quando percebi nada daquilo estava mais em meu coração. Desconfio que deve ter saltado de dentro de mim enquanto eu dormia. O que posso afirmar é que não está mais aqui aquilo tudo, é como se nunca tivesse estado, me pertencido e me atormentado. Estou aliviada, é certo, implorei inúmeras vezes para que me deixasse, mas não assim, a seco, sem sequer um último arrepio. Sentimento ladrão. Roubou-me o sossego e muitas noites. Hóspede ingrato e traiçoeiro é o que és. Deleito-me com sua ausência tão desejada, mas quanta deselegância fugir assim depois de tantos anos! E não me venha falar de amor, praga estúpida! Não me faça visitas nem por um segundo, se vier te enforcarei, já comprei uma corda. Nunca mais passaremos um natal juntos e meus anos serão novos e limpos. Tomara que o tempo te arraste por anos incessantes, sentirá as agruras da prisão, o inferno de não se pertencer. Seus ouvidos servirão para chantagens vis. O tempo inescrupuloso não te soltará, te arrastará pelos teus próprios caminhos, teus olhos se arregalarão ao ver tua própria estupidez. Entenderá então seu inexistente significado, e se entristecerá ao descobrir seu pouco tamanho. Sentirá tristeza! E sentirá tudo de uma só vez, altas doses de tristeza acumulada ao lado de todas as outras sensações intocadas. Não sou dada a vinganças, não é realmente de minha natureza, tenho preguiça, mas me delicio com a vida longa que terá pela frente. Não esquecerás meu rosto, enquanto eu, dentro de instantes não lembrarei mais de ti. Te apagarei.
fina Flor
OLHOS SECOS E INFANTIS ERA O QUE VIA NO ESPELHO EMBAÇADO DO BANHEIRO DE AZULEJOS AZUIS. OS CABELOS AINDA MOLHADOS ESFRIAVAM O CORPO NU. UMA INCERTEZA LATENTE TRATAVA DE LHE ESQUENTAR OS PENSAMENTOS E CAMBALEAR SUAS PERNAS UMIDAS E MEDROSAS. A VONTADE ERA DE ENCOLHER-SE NO CHÃO FRIO E ADORMECER, IGNORANDO A ANGUSTIA DAS SENTENÇAS. OS MINUTOS INSISTIAM COM ARROGANTE RAPIDEZ. NÃO ERA O MOMENTO AINDA, ESTAVA VAZIA DE CONVICÇÕES E SE PUDESSE ESCOLHER GOSTARIA DE PODER DERRETER NAQUELE CHÃO DE BANHEIRO. QUE AGONIA NÃO TER SALVAÇÃO, PENSAVA, QUE MISÉRIA NÃO TER ESCOLHA. SE ADIANTASSE GRITAR A DEUS, GRITARIA. PEDIRIA ABRIGO, ACONCHEGO E IMPLORARIA POR UMA RESPOSTA EXATA. MAS DEUS JÁ NÃO OLHAVA POR ELA, ACREDITAVA. TINHA NOÇÃO DE SUA VIDA SEM MILAGRES E DE TODAS AS UTOPÍAS VAZIAS DE ALÍVIOS REPENTINOS. SUAS MÃOS SOZINHAS DESTRANCARAM A PORTA DO BANHEIRO. VAGOU PELA CASA MAL ILUMINADA, ABRIU A JANELA E GOSTOU DE VER QUE CHOVIA, TALVEZ POR AQUELA FALSA SENSAÇÃO DE QUE A CHUVA NOS PERMITE ADIAR OS COMPROMISSOS. ENGANOU-SE MAIS UM POUCO. VESTIU-SE SEM ÂNIMO E SE IRRITOU POR NÃO PODER APAGAR GESTOS BÊBADOS E DIAS MAL FEITOS. LÁ FORA, O ESPANTO. DEPOIS DA PORTA A VIDA ESCANCARADA EM MÃOS FUGAZES, SEU NOME DOCE DE PRINCESA ROLAVA NO BARRO SUJO DAS MENTIRAS. JÁ NÃO VALIA OS DEDOS DAS MÃOS, NÃO VALIA UMA VIDA DADA. E ERA TÃO LINDA, TÃO DESLUMBRANTEMENTE LINDA. COXAS VIGOROSAS ESQUECIDAS PELA ESCOLHA SÃ DE UM DIA TER QUERIDO MAIS, TER SE OFERECIDO MAIS. A CULPA ERA A DE SER PECAMINOSA, NOS GESTOS, FRASES E QUADRIS REBOLATIVOS. SEUS VESTIDOS JUSTOS ENTREGAVAM SEU TALENTO, SEU DELÍRIO VIL E SANTO DE SER UMA MULHER VASTA DE OLHOS GRANDES E CONVIDATIVOS. ADORAVA TODA SUA DELÍCIA, SABOREAVA-SE A SI MESMA QUANDO SOZINHA FREMIA PELA RUA E, SEM QUERER, PROMETIA FUTUROS FELIZES A HOMENS SEM QUALIDADES. E COMO DANÇAVA! ESTICAVA AS PERNAS DE MANEIRA EXATA, OS BRAÇOS VARRIAM AMBIENTE E OLHARES. NÃO HAVIA ESCOLHIDO TAL ROTEIRO, OS DIAS APENAS FORAM PASSANDO E, PRINCIPALMENTE, AS NOITES. TINHA FASCÍNIO PELO CAIR DA TARDE: O CÉU DIMINUINDO E A VASTIDÃO DE POSSIBILIDADES NA PENUMBRA. ELA PRÓPRIA ERA UMA PENUMBRA DUVIDOSA QUE NÃO ESCLARECIA DE PRONTO. ERA PRECISO VASCULHAR, ARRANCAR SEGREDOS E MENTIRAS DE BOCA TÃO BEM FEITA. OS LÁBIOS, UM ATAQUE. SUA SALIVA PARCA EXPULSAVA FRASES ENCANTADORAS A SERES DISPOSTOS E CRÉDULOS DA FELICIDADE PROMETIDA UM DIA, NUM LIVRO OU NUM HORÓSCOPO VELHO E CHINÊS. E LAMBIA OS DEDOS COM DELÍCIA DE PRIMEIRA VEZ, SORRIA ENFEITIÇADA POR SER ASSIM TÃO PURAMENTE CHEIA DE BONDADE PERIGOSA. ERA UMA BELA BUNDA E MUITO MAIS. TINHA O DOM DE ENLOUQUECER A VIDA ALHEIA, DE RECHEAR DE BOAS NOVAS VIDAS OCAS E PERAMBULENTES.
halley (para alessandro)
Quando o viu pela primeira vez foi quase medo o que sentiu, levou um susto ao, repentinamente, sentir felicidade. Um calor inédito aqueceu seu ventre, suava. Descobriu num rompante que a beleza é o que se sente, pois aquele homem a sua frente não era exatamente belo ao olhar alheio, ela entendera então, que a beleza não é palpável nem visível, a beleza é um calor. Seus pés já não eram os mesmos, eram pés inchados pela languidez, suas coxas realizavam um movimento involuntário, se afastando uma da outra. Nevava sobre seus cabelos, era uma noite fria e azul. Em algum lugar por perto podia-se ouvir a voz de Etta James cantando Stormy weather, ela atravessou a rua, sonâmbula e estrangeira. Nunca cogitou que precisasse viajar para tão longe para que não morresse dentro de um corpo até então sem novidades. Ela alcançaria, ela alcançaria.
sanidade
Talvez, como suspeitei um dia, você realmente não exista. Devo ter inventado tudo numa noite qualquer, enquanto me ocupava em conseguir dormir. Mais uma estória apenas, das muitas que já inventei tendo o corpo esgotado e a imaginação angustiantemente disposta a dar palpites. Mas acontece que aceito todas as minhas invenções, as obedeço, porque sei que é esse o meu teor. E deve ser por isso até, que as únicas coisas fatalmente irreverssíveis para mim, são as que não existem. Nas minhas estórias sempre têm um momento em que não há mais para onde ir, mas também já não há como voltar. Somente o que imagino não se apaga em mim, e é tão melhor que seja assim... É dessa maneira que a eternidade age em mim, mesmo porque nunca associei a eternidade com o vulgar significado pela qual é conhecida. A imaginação é a parte mais fiel do meu corpo, e encontrar um lugar seguro em nosso corpo traiçoeiro é muito bom. Não há nada de fantástico nos dias reais, a realidade sempre me enjoou com sua ausência de devaneios. As minhas tentativas com o palpável sempre ocorreram na mesma ordem, ou seja, mais cedo ou mais tarde eu acabava fugindo, sendo levada a exercitar o fim. Os fins não me atraem, e dentro da realidade eles são inevitáveis. O que imagino não se acaba, mesmo que não continue. O silêncio é quem me manda os recados. O verossímil é uma condição extrema e cruel. As coisas em que acredito não possuem o rancor da estabilidade, sou uma via livre onde, ir, nem sempre significa estar indo de fato, e assim é com todas as outras palavras. As palavras reais são pesadas demais para uma vida, para minha, ao menos, são. E é por tudo isso também, que o irreverssível, essa palavra dura, me agrada, porque sou em quem escolho os meus retornos. Nos meus enredos tudo se mantêm em suspenso, e se manter assim é o que existe de imutável. Isso tudo pode parecer muito complicado, mas não o é. Na verdade, esse artifício facilita minha relação com o insuportável, e num mundo onde se é obrigado a suportar tantas incoerências, encontrei um lugar aconchegante e generoso.
o meu caber
Uma rua deserta. Uma cama vazia e desarrumada. Um casal dançando lentamente. Uma cidade enfeitada para o natal. Uma mulher chorando enquanto assiste a um filme no cinema. Margaridas amarelas e pequenas. Um banheiro colorido. Uma meninazinha observando a chuva através de uma janela. Um guarda-chuva preto sobre duas pessoas ao longe. A lente de um binóculo. Uma ópera. Um pé cheio de areia. O ilíaco de um homem. Dois amantes sentados no primeiro degrau de uma longa escadaria. Os botões de um vestido. Um cabelo de mulher, comprido e vermelho. Nuvens vistas pela janela do avião. Um segredo bem guardado. Um caleidoscópio. O barulho da xícara encostando no pires. Uma igreja vazia. A pausa entre uma palavra e outra. Roupas no varal. O silêncio do fundo do mar. Uma porta entreaberta. O buraco da fechadura. Uma bula de remédio. Uma jovem roendo as unhas. O momento máximo do sexo. Uma gaveta de talheres. O momento da inspiração. Uma borboleta preta e amarela. Um velho lavando as mãos. Uma criança acordando. O beijo de despedida. Um homem assobiando uma música na fila do supermercado. Um sonho bom durante a noite. O entregador de pizzas. A parte de dentro das coxas. Unhas vermelhas. O olhar entre duas pessoas desconhecidas. Um teatro lotado. Audrey Hepburn. Um pescoço perfumado. Um chapéu sendo levado pelo vento. Um dia cinza. Um pedido insistente. O entardecer de um dia de sol. A linha do horizonte. O desejo de se entregar. Um submarino. Os batimentos cardíacos. Um susto. O mapa do mundo. Um par de seios grandes. A fumaça do trem. Um pai. Uma mãe. Uma plantação de morangos. Um morcego. Imãs na geladeira. O corredor que leva aos quartos de uma casa. Passos rápidos. Uma festa de ano novo. A vingança. A maldade. O momento da traição. O arrependimento. O inevitável. O perdão. O rancor. A perdição. Dois corpos nus, emaranhados. A volúpia. A pressa. A palavra não dita. A luz. Uma pilha fraca. O telefone que não toca. O desespero. Uma notícia. Uma visita bem-vinda. O vizinho barulhento. O fracasso. O êxtase. A gota d¿água. Uma águia. Um chão imundo. A demora. Uma idéia brilhante. Uma música que fala de amor. Um amor que foi embora. A casa da avó. Um porta-retratos. O cérebro. Um diário. Um homem gordo. Uma mulher traiçoeira. Uma frase célebre. A dor. A mentira. Uma caixinha de música. Livros na estante. Uma revelação. Um banho demorado. O momento de raiva. O inacessível. O mês de dezembro. Uma cantora de jazz. Uma negra rebolando. Um homem feliz. Um astronauta. Remédios para dormir. O criado-mudo. Uma pia cheia de louças. Uma ordem de despejo. Um crime perfeito. Um grito. Alguém cantando em espanhol. O tédio de um domingo a noite. Uma grande bobagem. O momento de escolha. O suor. A saliva. O mau gosto. O abandono. Um livro de receitas. O bolo assando no forno. Uma pista. O vício. Uma amizade que acabou. Um anel de brilhantes. Um mar revolto. O inverno. O mistério. Versões de uma mesma história. Um engano. A decepção. O começo. O meio. O fim.
para mim
Quero me assustar, me assoberbar e ir embora. Me canso fácil, enjôo. A vida se repete, me persegue sem novidades.
Quero o que ainda não existe, quero a descoberta desobediente e incabível. Atropelem-me por favor, pisoteiem meu coração e derramem sobre mim um amor exausto e incansável. Esfreguem-me na cara o que ainda não vi, acabem de uma vez com essa minha falta de espanto. Quero o terror agradável de uma ternura inquieta e verossímel, quero queimar-me numa rua estreita e sem saída.
Quero o que ainda não existe, quero a descoberta desobediente e incabível. Atropelem-me por favor, pisoteiem meu coração e derramem sobre mim um amor exausto e incansável. Esfreguem-me na cara o que ainda não vi, acabem de uma vez com essa minha falta de espanto. Quero o terror agradável de uma ternura inquieta e verossímel, quero queimar-me numa rua estreita e sem saída.
o não ser
Quero estar apenas eu. Secreta como quem mente. Guardar com egoísmo pensamentos estranhos e intrometidos. Quero cobrir-me de invisível e não habitar país algum. Experimentar suave o inexistente, o não sentir nem dor nem cócegas. Um sopro do que seria um não-mundo, sem a sensatez de razões límpidas e cabíveis. Não caber é o que anseio. Ausentar-me sem saber-me ausente. Não ter que ir ou chegar ou bastar. Sou tão vasta que me canso, me doem os ombros. Por um instante quero descansar de mim, esquecer meu nome e não sentir meu corpo e suas cobiças. Mãos ociosas e desobedientes, livres da avidez de sempre, ignorantes de obstinações. Momentos absolutos de sossego, um vão, um espaço vazio no meio de minhas montanhas diárias. Um não alcançar. Abandonar de leve meus desejos, tomar fôlego e depois voltar à rotina de desejar e desejar e desejar. Ter a saliva feita de silêncio e a cabeça despreocupada como deve ser a cabeça de um pássaro. Nenhum sonho nos meus olhos fechados. Nenhum sonho. Quero saber como é não ter ânsias, me transformar num mar tranqüilo e sem perigo. Vou me afogar agora, estou indo. Entontecer-me em ventos leves e desequilibrados. Logo voltarei, com fome e sede e volúpia. Fome e sede e volúpia.
pequena aventura
Logo pela manhã dava pra perceber que o dia seria cinza. A tristeza espontânea de um dia cinza me despertou certos desejos. Fiz planos de caminhar durante a tarde. Quem sabe a chuva rala não molhasse levemente meus cabelos e transformasse meu dia.
Saí sem compromisso. A chuva caia fina, como eu havia desejado. A rua estava molhada e as pessoas passavam correndo, cumprindo seu destino. Meus pensamentos combinavam com o clima instável e eu estava contente. O dia havia nascido para mim. Meus passos iam um por um, num movimento desinteressado, sem rumo. Lembrei da minha infância, os banhos de chuva, a roupa encharcada. Uma entrega tola num impulso de liberdade. Foi assim que me aventurei hoje nesse dia cinza. Foi pra me sentir solta no mundo que desejei me molhar na chuva. É tão pouco e é tanto.
Cruzei ruas, dobrei esquinas. Percebi que a eternidade está nas coisas que não mudam. A chuva, o vento e os dias cinzas sempre existiram.
Parei para tomar um café. Sentei e tomei um café no meio da tarde escura. Tarde de primavera. Observei a pressa dos passos alheios. Nos olhos impacientes da funcionária do café, pude ver que ansiava pelo fim do expediente. Na mesa ao lado da minha estava sentada uma mulher, trinta e cinco anos no máximo. Ela falava ao telefone e, inevitavelmente, ouvi a conversa, estava irritada, reclamava da chuva que nesse momento aumentava cada vez mais. Ali fiquei, aguardando a chuva forte passar. Tomei mais um café e comi um brigadeiro. Há muito tempo eu não comia um brigadeiro.
A chuva diminuiu. Paguei a conta e voltei ao meu passeio. Entrei na próxima rua. Notei que nunca havia passado por ali. Lembrei de um filme que vi uma vez, tinha uma rua parecida com essa, e também chovia. Começou a anoitecer, já não era cinza o meu dia. As luzes da cidade começavam se ascender e só me restava pegar o caminho de volta para casa. Mas também ia ser agradável caminhar pela noite. Estava longe de casa, ainda teria um bom caminho pela frente. O vento lambia meu cabelo. Comecei a sentir frio. Andei bem rapidinho e logo cheguei em casa. Banho quente e demorado. A chuva continuava lá fora, mas na televisão dizia que durante a noite tudo ia mudar. O dia seguinte não seria cinza e não teríamos chuva, no máximo uma pancadazinha.
Já deitada pra dormir, fiquei pensando em meu dia. Teria uma noite tranqüila.
Saí sem compromisso. A chuva caia fina, como eu havia desejado. A rua estava molhada e as pessoas passavam correndo, cumprindo seu destino. Meus pensamentos combinavam com o clima instável e eu estava contente. O dia havia nascido para mim. Meus passos iam um por um, num movimento desinteressado, sem rumo. Lembrei da minha infância, os banhos de chuva, a roupa encharcada. Uma entrega tola num impulso de liberdade. Foi assim que me aventurei hoje nesse dia cinza. Foi pra me sentir solta no mundo que desejei me molhar na chuva. É tão pouco e é tanto.
Cruzei ruas, dobrei esquinas. Percebi que a eternidade está nas coisas que não mudam. A chuva, o vento e os dias cinzas sempre existiram.
Parei para tomar um café. Sentei e tomei um café no meio da tarde escura. Tarde de primavera. Observei a pressa dos passos alheios. Nos olhos impacientes da funcionária do café, pude ver que ansiava pelo fim do expediente. Na mesa ao lado da minha estava sentada uma mulher, trinta e cinco anos no máximo. Ela falava ao telefone e, inevitavelmente, ouvi a conversa, estava irritada, reclamava da chuva que nesse momento aumentava cada vez mais. Ali fiquei, aguardando a chuva forte passar. Tomei mais um café e comi um brigadeiro. Há muito tempo eu não comia um brigadeiro.
A chuva diminuiu. Paguei a conta e voltei ao meu passeio. Entrei na próxima rua. Notei que nunca havia passado por ali. Lembrei de um filme que vi uma vez, tinha uma rua parecida com essa, e também chovia. Começou a anoitecer, já não era cinza o meu dia. As luzes da cidade começavam se ascender e só me restava pegar o caminho de volta para casa. Mas também ia ser agradável caminhar pela noite. Estava longe de casa, ainda teria um bom caminho pela frente. O vento lambia meu cabelo. Comecei a sentir frio. Andei bem rapidinho e logo cheguei em casa. Banho quente e demorado. A chuva continuava lá fora, mas na televisão dizia que durante a noite tudo ia mudar. O dia seguinte não seria cinza e não teríamos chuva, no máximo uma pancadazinha.
Já deitada pra dormir, fiquei pensando em meu dia. Teria uma noite tranqüila.
frio
Ouço o barulho agudo do vento na noite que insiste depois da janela.
Tento me proteger da escuridão. Assusto-me à toa, tenho espasmos e esbarro nos móveis da sala. Tapo meus ouvidos e aperto os olhos, evitando não sei bem o quê. Não tenho ainda muita intimidade com meu medo, fomos apresentados rapidamente certa vez. Depois disso começou a me mandar recados indecentes ― breves bilhetes escritos em papel de pão e guardanapos toscos de mesa de bar, que coloca cuidadosamente debaixo da minha porta.
O vento faz a janela tremer, a tensão dos meus ombros aumenta a cada batida na janela. É o medo imbecil querendo entrar.
Durante o dia não recebo visitas nem mensagens. Ele ronda minha casa durante a madrugada, deve ter se informado sobre minha insônia. Certamente escolheu a noite de propósito, sentimento sinistro que é. Esse inverno que não termina nunca, já é novembro e o termômetro marca onze graus, o que não faz muito sentido num país tropical. Sem dúvida nos dias quentes é tudo mais tranqüilo, meu corpo esquenta e se torna abrigo de coragem. Se pudéssemos ter uma conversa honesta, esclarecer dúvidas e estabelecer limites talvez ficasse mais fácil abrir a janela e andar pela casa. Houve momentos em que me distraí, como numa noite em que dançava na sala e o único barulho era o da música que embalava meu corpo pra lá e pra cá, meus ombros estavam leves e meus braços realizavam gestos grandes. A música foi ficando mais rápida e comecei rodopiar freneticamente, no meio do quarto ou quinto rodopio meu vestido começou a voar, era o vento forte entrando pela janela semi-aberta. Nunca mais dancei, nem dei festas de arromba.
Às vezes me tranco no banheiro e fico lá dentro por horas, contando os azulejos e lavando as mãos na pia, depois saio e espero o dia nascer na janela da sala.
Tento me proteger da escuridão. Assusto-me à toa, tenho espasmos e esbarro nos móveis da sala. Tapo meus ouvidos e aperto os olhos, evitando não sei bem o quê. Não tenho ainda muita intimidade com meu medo, fomos apresentados rapidamente certa vez. Depois disso começou a me mandar recados indecentes ― breves bilhetes escritos em papel de pão e guardanapos toscos de mesa de bar, que coloca cuidadosamente debaixo da minha porta.
O vento faz a janela tremer, a tensão dos meus ombros aumenta a cada batida na janela. É o medo imbecil querendo entrar.
Durante o dia não recebo visitas nem mensagens. Ele ronda minha casa durante a madrugada, deve ter se informado sobre minha insônia. Certamente escolheu a noite de propósito, sentimento sinistro que é. Esse inverno que não termina nunca, já é novembro e o termômetro marca onze graus, o que não faz muito sentido num país tropical. Sem dúvida nos dias quentes é tudo mais tranqüilo, meu corpo esquenta e se torna abrigo de coragem. Se pudéssemos ter uma conversa honesta, esclarecer dúvidas e estabelecer limites talvez ficasse mais fácil abrir a janela e andar pela casa. Houve momentos em que me distraí, como numa noite em que dançava na sala e o único barulho era o da música que embalava meu corpo pra lá e pra cá, meus ombros estavam leves e meus braços realizavam gestos grandes. A música foi ficando mais rápida e comecei rodopiar freneticamente, no meio do quarto ou quinto rodopio meu vestido começou a voar, era o vento forte entrando pela janela semi-aberta. Nunca mais dancei, nem dei festas de arromba.
Às vezes me tranco no banheiro e fico lá dentro por horas, contando os azulejos e lavando as mãos na pia, depois saio e espero o dia nascer na janela da sala.
14/09/07
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a noite brilhante
Se eu pudesse mudar esse momento, apenas esse momento, começaria estacionando a noite. São dez horas da noite e eu gostaria que daqui dez, quinze, vinte minutos continuasse sendo dez horas. Hoje é segunda-feira e isso eu não mudaria. Está frio, nem dá pra abrir a janela por conta do vento, o que é ruim, portanto, aumentaria a temperatura para vinte e três graus e meio. Estou sozinha em minha casa e isso eu também mudaria: a campainha tocaria e através do olho mágico veria um amigo, ele teria um presente para mim. Estou tomando chá, que seria rapidamente trocado por vinho ou uísque, ou os dois. Gostaria de ser tomada pela novidade, trocando minha noite de sono por uma noite de sonho. A novidade de uma longa noite. Mudaria a cor de meus cabelos, só por essa noite. Trocaria a estranheza desse momento por um sentimento avassalador. Trocaria minhas perguntas por outras fáceis de responder. Trocaria as dúvidas por um sorriso sem mistério. Mudaria o tamanho das coisas pequenas. Aumentaria as possibilidades. Diminuiria a distância que existe entre mim e o sul do país. Escolheria uma cor para este dia cinza. Trocaria o tamanho da minha coragem. Sumiria com o significado da palavra arrependimento. Trocaria minha dor de estômago por qualquer dor menor. Se eu pudesse mesmo mudar esse momento, mudaria o meu próprio mistério. Revelaria a todos que o que eu queria mesmo era ser dançarina. Escolheria não precisar mentir. Colocaria uma saia rodada só pra ficar rodando. Faria uma descoberta importante nessa noite. Grandes idéias eu teria. Usaria um par de brincos para enfeitar meu rosto novo. Sandálias vermelhas pra combinar com minha saia. Passaria um batom bem rosinha, do tipo brilho. Frases, muitas frases nessa noite. Desejaria um céu bem escuro, preto mesmo. A noite mais brilhante dos últimos cem anos. Seria manchete de jornais do mundo todo "A noite brilhante", "Noite sem fim", "O dia em que mexeram na noite", "Fenômeno!", "A noite inventada", "O mundo vai acabar, talvez", "Caos, calor e escuridão"... Especulações sobre o tema não faltariam. Eu inventando noites perfeitas e as pessoas transformando a escuridão em fim do mundo! Vê se pode. Difícil mesmo conseguir agradar. Não chegou o fim. A noite ainda está aqui, brilhante. Ainda são dez horas e tudo continua escuro. Ainda tenho planos, muitos planos. Minha cama ainda não está quente o suficiente para que eu me recolha. Ainda não cansei de brincar, quero enganar a escuridão mais um pouquinho. Existem várias coisas que ainda não mudei, meu corpo ainda está cheio de noite e meu coração não está completamente satisfeito, ele ainda espera por mim, ainda torce por mim, eu sinto que ele quer mais, ele bate diferente quando quer me dizer alguma coisa, bate insistente, posso ouvir o que ele diz, e bem baixinho ele sussurra: ¿ainda falta, ainda falta¿. Feliz é quem escuta o coração, é o que dizem.
infinito
Existem coisas que são infinitas. O que sinto agora é infinito. Estou no meio de uma noite infinita, fazendo perguntas infinitas e contando mentiras infinitas. Estou triste, infinitamente triste, quero que isso acabe, não quero essa imensidão.
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